Friday, April 17, 2009

Para onde vai o dinheiro do consumidor

 Em 2009, a economia brasileira será sustentada por seu mercado interno.

    Um estudo inédito mostra como quase 2 trilhões de reais serão gastos neste ano  Dono da quinta maior população e do oitavo mercado consumidor do mundo, o Brasil se transformou nos últimos anos em uma das principais fronteiras de negócios das empresas no panorama global. Chineses e indianos à parte, ficou difícil ignorar dezenas de milhões de brasileiros alçados à classe média recentemente. Crescimento acelerado nas vendas internas e um estoque ainda gigantesco de pessoas a incorporar ao mercado de consumo fizeram a estrela brasileira brilhar mais fortemente no mundo dito emergente - e ajudaram a definir um novo papel do país no século 21. Então, veio a crise econômica, e todos os prognósticos sobre o futuro dos emergentes foram para a gaveta. Passados seis meses, já é possível divisar alguns fatos em meio à névoa que ainda obscurece o cenário global. Fato um: o Brasil não escapou da confusão - nem seria razoável esperar o contrário. Fato dois: paradoxalmente, a crise pode até acentuar a ascensão brasileira. Lá fora, o cenário continua sendo de quase depressão. Estima-se que o gasto total das famílias americanas tenha caído 5% no último ano - e as previsões são ainda piores à frente. Resultados igualmente sombrios são recorrentes em quase todas as áreas ricas do mundo. Por aqui, o mercado consumidor não apenas permanece robusto - a alta nas compras foi de quase 6% no último ano - como vem se transformando no principal alicerce da economia brasileira neste duro ano de 2009. Esse mesmo mercado pode ser também o fator primordial para colocar o Brasil no pelotão de frente quando os bons ventos voltarem a soprar. |Veja também É exatamente isso o que mostram dois estudos exclusivos obtidos por EXAME. Lidos conjuntamente, servem como um mapa do consumo para este ano, evidenciando quem deve ganhar espaço e quem deve ficar para trás na divisão do bolo. Uma das principais conclusões é que o mercado interno será determinante para o estado geral da economia brasileira. Tradicionalmente, os economistas apontam como principais “motores” econômicos as vendas para o mercado interno, as exportações e os investimentos. Até o ano passado, o crescimento do mercado interno caminhou junto com a aceleração dos investimentos das empresas e das exportações do país - e isso tornou possível o avanço do PIB acima de 5% em 2007 e em 2008. Desde a eclosão da crise, porém, o sinal mudou. Muitos investimentos, atingidos pela contração internacional do crédito e influenciados pela piora do cenário geral da economia, já foram postergados. As exportações, por sua vez, estão em franca desaceleração. Mas o consumo das famílias não necessariamente obedece à mesma lógica e pode ser a grande fonte de notícias positivas no Brasil. Responsável por 60% de toda a riqueza produzida no país, o consumo atingiu 1,8 trilhão de reais em 2008. Segundo a consultoria MCM, autora de um dos estudos repassados a EXAME, mesmo em um cenário pessimista (de retração de 0,5% da economia), os gastos das famílias devem apresentar um pequeno crescimento em relação a 2008, de 2,4 bilhões de reais. Significa dizer que, no pior quadro imaginado para 2009, o mercado consumidor brasileiro irá repetir, com alguma folga, o desempenho do ano passado, um dos melhores da história. Numa projeção mais otimista, os números deste ano podem ser mais vistosos - e até mesmo bem mais vistosos, dependendo do setor em questão. A heterogeneidade setorial, aliás, é uma das marcas registradas de 2009. Entre os setores de perspectiva mais positiva está o de supermercados e hipermercados, que deve crescer 5,3%, praticamente repetindo a taxa de 2008. O varejo de produtos farmacêuticos também apresenta taxas de crescimento altas - neste ano, deve crescer mais de 12%. Esse desempenho coincide com a popularização dos remédios genéricos e o aumento da capacidade de consumo das classes mais baixas, que não tinham acesso a medicamentos. Junto a isso, as grandes redes de drogarias modernizaram o segmento, introduzindo a venda de novos produtos, como cosméticos. Já para a venda de carros, motos e combustíveis - apesar do efeito positivo até agora do corte temporário de impostos, ampliado até o final de junho pelo governo -, a previsão é de retração. O que explica resultados tão díspares? Em larga medida, as reações do consumidor brasileiro ante o cenário mais difícil. Desde janeiro, o desemprego encontra-se em alta, e ele - ou sua mera perspectiva - talvez seja o fator que mais influencia a forma como as pessoas gastam seu dinheiro. “O nível de emprego deve ser a grande preocupação neste ano, seja para o cidadão, para as empresas ou para o governo”, diz o economista e consultor Nelson Barrizzelli, professor da Universidade de São Paulo. De acordo com o estudo da MCM, a taxa de desemprego no país deve subir para 10,5%, ante os 7,9% registrados no ano passado, quando atingiu o nível mais baixo desde 2002. Ocorre que o enfraquecimento da atividade econômica não afeta apenas quem perde o emprego. Boa parte das pessoas que permanecem empregadas também reage à situação, consumindo menos ou alterando hábitos e prioridades de compra. “É natural que o consumidor se torne mais cauteloso em tempos de crise”, afirma o consultor Olavo Cunha, sócio do escritório brasileiro do Boston Consulting Group. “O medo faz com que ele adie gastos, poupe mais, desista de fazer dívidas.” Uma das primeiras mudanças de hábito do consumidor é o corte de produtos supérfluos. Portanto, tende a sofrer menos quem produz bens e serviços considerados essenciais, como alimentos, remédios, artigos de higiene pessoal e de limpeza doméstica. Não estranha que o setor de supermercados e hipermercados seja um dos líderes de crescimento em 2009, segundo as projeções da MCM. Mas é preciso cuidado com conclusões apressadas. Um produto considerado supérfluo por alguém pode ser essencial para outro. Um consumidor de classe média pode até adiar uma viagem em razão da crise, mas só em último caso altera sua cesta de alimentos e produtos de higiene pessoal. Já para pessoas de classe de renda mais baixa, que tiveram acesso recentemente a certos produtos, bens como iogurte ou condicionador de cabelo podem ser considerados supérfluos e cortados da lista. “Trata-se do famoso efeito ‘escadinha’, em que cada pessoa dá um passo abaixo na lista de prioridades com o objetivo de diminuir despesas”, afirma Markus Stricker, vice-presidente da área de consumo e varejo da consultoria A.T. Kearney. Mudanças de comportamento do consumidor como essas acabam gerando uma espécie de redução em cascata na qualidade do consumo. Mas, como por enquanto tudo indica que o fluxo de consumo permanecerá fluindo, também é esperado que pelo menos um bom pedaço de cada degrau seja preservado. Posicionar-se para aproveitar o máximo possível da parte do consumo que será mantida em cada setor e para acompanhar as alterações de hábitos será fundamental para as empresas. Terão mais sucesso as que conhecem bem seus clientes e forem mais ágeis nas adaptações necessárias. “Além de considerar dados como emprego, renda e crédito, é preciso lembrar que o consumo nada mais é do que a concretização das necessidades e dos desejos das pessoas”, afirma Luiz Lazzarini, diretor do instituto de pesquisas de mercado Nielsen. São essas necessidades e desejos que se transformam em pacotes de açúcar, pares de sapatos, carros ou frascos de perfume levados do varejo para casa. A crise deve produzir reações curiosas. Uma das tendências esperadas é que as pessoas, especialmente das classes B e C, passem mais tempo em casa e transfiram um pouco mais de recursos para o lazer doméstico. As famílias dessa faixa poderão optar por ir menos vezes à praia ou cancelar uma viagem de férias, mas podem compensar parte dos desejos frustrados fazendo a troca do aparelho de TV ou a assinatura de um pacote de televisão paga com internet rápida. Algumas empresas já estão se movimentando para tentar aproveitar essas mudanças do mercado. A espanhola Telefónica anunciou que investirá 2,4 bilhões de reais no país neste ano, um montante 20% superior ao de 2008. A maior parte dos investimentos irá para a construção de infraestrutura de serviços de internet por banda larga e televisão por assinatura. “Nossos investimentos são de longo prazo de maturação e o Brasil é um dos mercados em melhor situação entre os que atuamos, especialmente se compararmos com a Europa e a América do Norte”, afirma Antonio Valente, presidente da Telefónica no país. A empresa está testando um grupo de produtos batizado de lar digital. Um deles funcionará como um iPhone fixo, permitindo a navegação na internet com o telefone fixo. Outro novo serviço integrará aparelhos da casa, que poderão ser acessados pelo telefone e pela internet. Quem pretende decifrar o comportamento do consumidor deve olhar com especial atenção para o panorama do crédito, um elemento vital para a reativação econômica. Logo após a eclosão da crise, o que se viu foi uma combinação perversa de dois fatores. De um lado, empresas e bancos se tornaram muito mais relutantes em conceder empréstimos, com medo de calotes. De outro, o próprio consumidor passou a fugir do crediário. Isso tudo faz com que os setores dependentes de financiamento sofram mais do que outros. A situação da Honda, por exemplo, deixa claro o impacto da redução do crédito. “Imediatamente após o início da crise, tivemos perda de 50% nos financiamentos em razão do excessivo rigor nas análises de créditos”, afirma Roberto Akiayama, diretor comercial da Moto Honda da Amazônia. O resultado foi uma drástica redução no volume de vendas, de 120 000 para 90 000 motos por mês. A Honda registrou queda de 40% nas vendas nas regiões Sul e Sudeste e redução de 12% nas demais, desde novembro. Apesar de tais resultados, a expectativa para o crédito é ainda positiva: o fluxo deve aumentar nos próximos meses e, segundo estimativas, o volume disponível para o consumo em 2009 deve ser superior ao de 2008. “A queda da taxa Selic e a ajuda do Banco Central para o crédito concedido pelos bancos de médio porte devem estimular a injeção de mais recursos nas áreas de consumo”, afirma Robson Gonçalves, consultor da FGV Projetos. A volta a essa normalidade é ansiosamente aguardada pelo setor de eletroeletrônicos e informática. Nos dois primeiros meses do ano, as vendas de aparelhos de linha branca, que incluem fogão, refrigerador, lavadora de roupas e micro-ondas, caíram 34% em relação ao primeiro bimestre de 2008. De acordo com Gisela Pougy, diretora da GfK, empresa que audita vendas no varejo de eletroeletrônicos, desde o início do ano já houve certa flexibilização do crédito, com impacto em alguns segmentos. A GfK registrou crescimento de 123% nas vendas de televisores de tela fina e de 30% nas de aparelhos de GPS para carros no primeiro bimestre - números que claramente destoam de um cenário de recessão e que mostram que há espaço para crescimento das vendas. “O bolso do consumidor é um só”, afirma Gisela. “Ele valoriza as novas tecnologias e tende a optar pelo que lhe parece mais útil.” Para as empresas, uma variável importante é a área geográfica de atuação. De acordo com um estudo da Target Marketing, empresa que projeta o potencial de consumo brasileiro, a Região Sul deve ser a que mais perderá potencial de consumo ao longo do ano, algo em torno de 2,7% em relação ao registrado no ano passado. “Os estados do Sul são grandes fornecedores de produtos para exportação, tanto do agronegócio quanto de manufaturados, justamente a frente que mais desempregou devido à queda da demanda internacional”, afirma Marcos Pazzini, diretor da Target. O Sudeste, que responde por mais da metade de todo o consumo do país, deve registrar uma queda de quase 1% no potencial de compra. Apesar de concentrar o maior polo industrial e exportador do país, o Sudeste sofre menos pela diversificação de sua economia. Boa parte da população trabalha no comércio ou em serviços, que devem sofrer menos baixas de emprego. Por outro lado, a Região Norte deve ganhar 6% em potencial de consumo, e a Região Nordeste, 3%. A explicação para o desempenho positivo está no fato de que parte significativa da população dessas regiões tem renda atrelada ao salário mínimo, que vem tendo reajustes acima da inflação, além de concentrar um contingente importante de beneficiários da Previdência Social e do Bolsa Família, que garantem renda mesmo em períodos de crise. O Nordeste, que representa quase um quinto do consumo do país, mais que o triplo do consumo dos estados do Norte, tornou-se um polo de atração de negócios. No ano passado, o conjunto de estados nordestinos ultrapassou o Sul no ranking regional de consumo e agora só fica abaixo do Sudeste. “Já inauguramos uma loja neste ano em Recife e manteremos a expansão da rede de lojas próprias na região”, afirma Mark Pitt, presidente da fabricante de tintas Sherwin Williams no Brasil. Nos últimos cinco anos, a subsidiária da companhia americana abriu 23 lojas no Nordeste, única região do país em que opera também no varejo. Segundo Pitt, alguns investimentos em infraestrutura, combinados com a chegada de novas empresas à região e ao próprio Bolsa Família, proporcionaram um crescimento mais robusto da economia nordestina. “Provavelmente meu cliente não ganha o Bolsa Família, mas faz parte da cadeia econômica que é afetada pela injeção desses recursos.” O Bolsa Família, aliás, ajuda a explicar por que o consumidor de classes mais baixas de renda deve sofrer proporcionalmente menos. Já nas classes mais altas, um conjunto ruim de fatores faz com que o impacto da crise seja maior. A maior parte do desemprego até aqui ocorreu na indústria - onde o salário médio é mais alto. É por isso que um dos segmentos mais afetados é a classe chamada de B2, onde, segundo a classificação da consultoria Target, a renda média é de 2 300 reais. Também devem se retrair os consumidores mais ricos, membros da classe batizada de A1 - neste caso, em larga medida, pelo impacto das perdas no mercado financeiro. Entre as ganhadoras, a classe E sobressai por crescer mais proporcionalmente - 33% - em potencial de consumo. Porém, sua relevância no total consumido no país é ínfima, 0,4%. O fato é que, numa análise mais ampla, graças ao mercado interno a economia brasileira ainda pode se sair relativamente bem. “A verdade é que, felizmente, a crise não se espalhou por todos os setores”, afirma Antonio Cássio dos Santos, presidente da seguradora Mapfre. Não se trata de ignorar a gravidade do problema, mas de colocá-lo em sua real dimensão. Uma crise no consumo só ocorrerá se surgirem surpresas gravíssimas e houver desemprego em massa, cenário que hoje parece remoto. O fator psicológico tem um papel relevante e difícil de prever. “Nos Estados Unidos, uma crise de fundamentos econômicos gerou a crise de confiança”, diz Santos. “Espero que, aqui, a crise de confiança não provoque uma crise de fundamentos.” Apesar de tudo o que se fala sobre a crise, o consumidor ainda mantém o desejo - e tem a necessidade - de consumir. Em tempo de ventos desfavoráveis e de quedas assustadoras nas vendas mundo afora, essa disposição do brasileiro tem tudo para fazer a diferença.

Reportagem tirada da Revista Exame

 Em 2009, a economia brasileira será sustentada por seu mercado interno.

    Um estudo inédito mostra como quase 2 trilhões de reais serão gastos neste ano  Dono da quinta maior população e do oitavo mercado consumidor do mundo, o Brasil se transformou nos últimos anos em uma das principais fronteiras de negócios das empresas no panorama global. Chineses e indianos à parte, ficou difícil ignorar dezenas de milhões de brasileiros alçados à classe média recentemente. Crescimento acelerado nas vendas internas e um estoque ainda gigantesco de pessoas a incorporar ao mercado de consumo fizeram a estrela brasileira brilhar mais fortemente no mundo dito emergente - e ajudaram a definir um novo papel do país no século 21. Então, veio a crise econômica, e todos os prognósticos sobre o futuro dos emergentes foram para a gaveta. Passados seis meses, já é possível divisar alguns fatos em meio à névoa que ainda obscurece o cenário global. Fato um: o Brasil não escapou da confusão - nem seria razoável esperar o contrário. Fato dois: paradoxalmente, a crise pode até acentuar a ascensão brasileira. Lá fora, o cenário continua sendo de quase depressão. Estima-se que o gasto total das famílias americanas tenha caído 5% no último ano - e as previsões são ainda piores à frente. Resultados igualmente sombrios são recorrentes em quase todas as áreas ricas do mundo. Por aqui, o mercado consumidor não apenas permanece robusto - a alta nas compras foi de quase 6% no último ano - como vem se transformando no principal alicerce da economia brasileira neste duro ano de 2009. Esse mesmo mercado pode ser também o fator primordial para colocar o Brasil no pelotão de frente quando os bons ventos voltarem a soprar. |Veja também É exatamente isso o que mostram dois estudos exclusivos obtidos por EXAME. Lidos conjuntamente, servem como um mapa do consumo para este ano, evidenciando quem deve ganhar espaço e quem deve ficar para trás na divisão do bolo. Uma das principais conclusões é que o mercado interno será determinante para o estado geral da economia brasileira. Tradicionalmente, os economistas apontam como principais “motores” econômicos as vendas para o mercado interno, as exportações e os investimentos. Até o ano passado, o crescimento do mercado interno caminhou junto com a aceleração dos investimentos das empresas e das exportações do país - e isso tornou possível o avanço do PIB acima de 5% em 2007 e em 2008. Desde a eclosão da crise, porém, o sinal mudou. Muitos investimentos, atingidos pela contração internacional do crédito e influenciados pela piora do cenário geral da economia, já foram postergados. As exportações, por sua vez, estão em franca desaceleração. Mas o consumo das famílias não necessariamente obedece à mesma lógica e pode ser a grande fonte de notícias positivas no Brasil. Responsável por 60% de toda a riqueza produzida no país, o consumo atingiu 1,8 trilhão de reais em 2008. Segundo a consultoria MCM, autora de um dos estudos repassados a EXAME, mesmo em um cenário pessimista (de retração de 0,5% da economia), os gastos das famílias devem apresentar um pequeno crescimento em relação a 2008, de 2,4 bilhões de reais. Significa dizer que, no pior quadro imaginado para 2009, o mercado consumidor brasileiro irá repetir, com alguma folga, o desempenho do ano passado, um dos melhores da história. Numa projeção mais otimista, os números deste ano podem ser mais vistosos - e até mesmo bem mais vistosos, dependendo do setor em questão. A heterogeneidade setorial, aliás, é uma das marcas registradas de 2009. Entre os setores de perspectiva mais positiva está o de supermercados e hipermercados, que deve crescer 5,3%, praticamente repetindo a taxa de 2008. O varejo de produtos farmacêuticos também apresenta taxas de crescimento altas - neste ano, deve crescer mais de 12%. Esse desempenho coincide com a popularização dos remédios genéricos e o aumento da capacidade de consumo das classes mais baixas, que não tinham acesso a medicamentos. Junto a isso, as grandes redes de drogarias modernizaram o segmento, introduzindo a venda de novos produtos, como cosméticos. Já para a venda de carros, motos e combustíveis - apesar do efeito positivo até agora do corte temporário de impostos, ampliado até o final de junho pelo governo -, a previsão é de retração. O que explica resultados tão díspares? Em larga medida, as reações do consumidor brasileiro ante o cenário mais difícil. Desde janeiro, o desemprego encontra-se em alta, e ele - ou sua mera perspectiva - talvez seja o fator que mais influencia a forma como as pessoas gastam seu dinheiro. “O nível de emprego deve ser a grande preocupação neste ano, seja para o cidadão, para as empresas ou para o governo”, diz o economista e consultor Nelson Barrizzelli, professor da Universidade de São Paulo. De acordo com o estudo da MCM, a taxa de desemprego no país deve subir para 10,5%, ante os 7,9% registrados no ano passado, quando atingiu o nível mais baixo desde 2002. Ocorre que o enfraquecimento da atividade econômica não afeta apenas quem perde o emprego. Boa parte das pessoas que permanecem empregadas também reage à situação, consumindo menos ou alterando hábitos e prioridades de compra. “É natural que o consumidor se torne mais cauteloso em tempos de crise”, afirma o consultor Olavo Cunha, sócio do escritório brasileiro do Boston Consulting Group. “O medo faz com que ele adie gastos, poupe mais, desista de fazer dívidas.” Uma das primeiras mudanças de hábito do consumidor é o corte de produtos supérfluos. Portanto, tende a sofrer menos quem produz bens e serviços considerados essenciais, como alimentos, remédios, artigos de higiene pessoal e de limpeza doméstica. Não estranha que o setor de supermercados e hipermercados seja um dos líderes de crescimento em 2009, segundo as projeções da MCM. Mas é preciso cuidado com conclusões apressadas. Um produto considerado supérfluo por alguém pode ser essencial para outro. Um consumidor de classe média pode até adiar uma viagem em razão da crise, mas só em último caso altera sua cesta de alimentos e produtos de higiene pessoal. Já para pessoas de classe de renda mais baixa, que tiveram acesso recentemente a certos produtos, bens como iogurte ou condicionador de cabelo podem ser considerados supérfluos e cortados da lista. “Trata-se do famoso efeito ‘escadinha’, em que cada pessoa dá um passo abaixo na lista de prioridades com o objetivo de diminuir despesas”, afirma Markus Stricker, vice-presidente da área de consumo e varejo da consultoria A.T. Kearney. Mudanças de comportamento do consumidor como essas acabam gerando uma espécie de redução em cascata na qualidade do consumo. Mas, como por enquanto tudo indica que o fluxo de consumo permanecerá fluindo, também é esperado que pelo menos um bom pedaço de cada degrau seja preservado. Posicionar-se para aproveitar o máximo possível da parte do consumo que será mantida em cada setor e para acompanhar as alterações de hábitos será fundamental para as empresas. Terão mais sucesso as que conhecem bem seus clientes e forem mais ágeis nas adaptações necessárias. “Além de considerar dados como emprego, renda e crédito, é preciso lembrar que o consumo nada mais é do que a concretização das necessidades e dos desejos das pessoas”, afirma Luiz Lazzarini, diretor do instituto de pesquisas de mercado Nielsen. São essas necessidades e desejos que se transformam em pacotes de açúcar, pares de sapatos, carros ou frascos de perfume levados do varejo para casa. A crise deve produzir reações curiosas. Uma das tendências esperadas é que as pessoas, especialmente das classes B e C, passem mais tempo em casa e transfiram um pouco mais de recursos para o lazer doméstico. As famílias dessa faixa poderão optar por ir menos vezes à praia ou cancelar uma viagem de férias, mas podem compensar parte dos desejos frustrados fazendo a troca do aparelho de TV ou a assinatura de um pacote de televisão paga com internet rápida. Algumas empresas já estão se movimentando para tentar aproveitar essas mudanças do mercado. A espanhola Telefónica anunciou que investirá 2,4 bilhões de reais no país neste ano, um montante 20% superior ao de 2008. A maior parte dos investimentos irá para a construção de infraestrutura de serviços de internet por banda larga e televisão por assinatura. “Nossos investimentos são de longo prazo de maturação e o Brasil é um dos mercados em melhor situação entre os que atuamos, especialmente se compararmos com a Europa e a América do Norte”, afirma Antonio Valente, presidente da Telefónica no país. A empresa está testando um grupo de produtos batizado de lar digital. Um deles funcionará como um iPhone fixo, permitindo a navegação na internet com o telefone fixo. Outro novo serviço integrará aparelhos da casa, que poderão ser acessados pelo telefone e pela internet. Quem pretende decifrar o comportamento do consumidor deve olhar com especial atenção para o panorama do crédito, um elemento vital para a reativação econômica. Logo após a eclosão da crise, o que se viu foi uma combinação perversa de dois fatores. De um lado, empresas e bancos se tornaram muito mais relutantes em conceder empréstimos, com medo de calotes. De outro, o próprio consumidor passou a fugir do crediário. Isso tudo faz com que os setores dependentes de financiamento sofram mais do que outros. A situação da Honda, por exemplo, deixa claro o impacto da redução do crédito. “Imediatamente após o início da crise, tivemos perda de 50% nos financiamentos em razão do excessivo rigor nas análises de créditos”, afirma Roberto Akiayama, diretor comercial da Moto Honda da Amazônia. O resultado foi uma drástica redução no volume de vendas, de 120 000 para 90 000 motos por mês. A Honda registrou queda de 40% nas vendas nas regiões Sul e Sudeste e redução de 12% nas demais, desde novembro. Apesar de tais resultados, a expectativa para o crédito é ainda positiva: o fluxo deve aumentar nos próximos meses e, segundo estimativas, o volume disponível para o consumo em 2009 deve ser superior ao de 2008. “A queda da taxa Selic e a ajuda do Banco Central para o crédito concedido pelos bancos de médio porte devem estimular a injeção de mais recursos nas áreas de consumo”, afirma Robson Gonçalves, consultor da FGV Projetos. A volta a essa normalidade é ansiosamente aguardada pelo setor de eletroeletrônicos e informática. Nos dois primeiros meses do ano, as vendas de aparelhos de linha branca, que incluem fogão, refrigerador, lavadora de roupas e micro-ondas, caíram 34% em relação ao primeiro bimestre de 2008. De acordo com Gisela Pougy, diretora da GfK, empresa que audita vendas no varejo de eletroeletrônicos, desde o início do ano já houve certa flexibilização do crédito, com impacto em alguns segmentos. A GfK registrou crescimento de 123% nas vendas de televisores de tela fina e de 30% nas de aparelhos de GPS para carros no primeiro bimestre - números que claramente destoam de um cenário de recessão e que mostram que há espaço para crescimento das vendas. “O bolso do consumidor é um só”, afirma Gisela. “Ele valoriza as novas tecnologias e tende a optar pelo que lhe parece mais útil.” Para as empresas, uma variável importante é a área geográfica de atuação. De acordo com um estudo da Target Marketing, empresa que projeta o potencial de consumo brasileiro, a Região Sul deve ser a que mais perderá potencial de consumo ao longo do ano, algo em torno de 2,7% em relação ao registrado no ano passado. “Os estados do Sul são grandes fornecedores de produtos para exportação, tanto do agronegócio quanto de manufaturados, justamente a frente que mais desempregou devido à queda da demanda internacional”, afirma Marcos Pazzini, diretor da Target. O Sudeste, que responde por mais da metade de todo o consumo do país, deve registrar uma queda de quase 1% no potencial de compra. Apesar de concentrar o maior polo industrial e exportador do país, o Sudeste sofre menos pela diversificação de sua economia. Boa parte da população trabalha no comércio ou em serviços, que devem sofrer menos baixas de emprego. Por outro lado, a Região Norte deve ganhar 6% em potencial de consumo, e a Região Nordeste, 3%. A explicação para o desempenho positivo está no fato de que parte significativa da população dessas regiões tem renda atrelada ao salário mínimo, que vem tendo reajustes acima da inflação, além de concentrar um contingente importante de beneficiários da Previdência Social e do Bolsa Família, que garantem renda mesmo em períodos de crise. O Nordeste, que representa quase um quinto do consumo do país, mais que o triplo do consumo dos estados do Norte, tornou-se um polo de atração de negócios. No ano passado, o conjunto de estados nordestinos ultrapassou o Sul no ranking regional de consumo e agora só fica abaixo do Sudeste. “Já inauguramos uma loja neste ano em Recife e manteremos a expansão da rede de lojas próprias na região”, afirma Mark Pitt, presidente da fabricante de tintas Sherwin Williams no Brasil. Nos últimos cinco anos, a subsidiária da companhia americana abriu 23 lojas no Nordeste, única região do país em que opera também no varejo. Segundo Pitt, alguns investimentos em infraestrutura, combinados com a chegada de novas empresas à região e ao próprio Bolsa Família, proporcionaram um crescimento mais robusto da economia nordestina. “Provavelmente meu cliente não ganha o Bolsa Família, mas faz parte da cadeia econômica que é afetada pela injeção desses recursos.” O Bolsa Família, aliás, ajuda a explicar por que o consumidor de classes mais baixas de renda deve sofrer proporcionalmente menos. Já nas classes mais altas, um conjunto ruim de fatores faz com que o impacto da crise seja maior. A maior parte do desemprego até aqui ocorreu na indústria - onde o salário médio é mais alto. É por isso que um dos segmentos mais afetados é a classe chamada de B2, onde, segundo a classificação da consultoria Target, a renda média é de 2 300 reais. Também devem se retrair os consumidores mais ricos, membros da classe batizada de A1 - neste caso, em larga medida, pelo impacto das perdas no mercado financeiro. Entre as ganhadoras, a classe E sobressai por crescer mais proporcionalmente - 33% - em potencial de consumo. Porém, sua relevância no total consumido no país é ínfima, 0,4%. O fato é que, numa análise mais ampla, graças ao mercado interno a economia brasileira ainda pode se sair relativamente bem. “A verdade é que, felizmente, a crise não se espalhou por todos os setores”, afirma Antonio Cássio dos Santos, presidente da seguradora Mapfre. Não se trata de ignorar a gravidade do problema, mas de colocá-lo em sua real dimensão. Uma crise no consumo só ocorrerá se surgirem surpresas gravíssimas e houver desemprego em massa, cenário que hoje parece remoto. O fator psicológico tem um papel relevante e difícil de prever. “Nos Estados Unidos, uma crise de fundamentos econômicos gerou a crise de confiança”, diz Santos. “Espero que, aqui, a crise de confiança não provoque uma crise de fundamentos.” Apesar de tudo o que se fala sobre a crise, o consumidor ainda mantém o desejo - e tem a necessidade - de consumir. Em tempo de ventos desfavoráveis e de quedas assustadoras nas vendas mundo afora, essa disposição do brasileiro tem tudo para fazer a diferença.

Reportagem tirada da Revista Exame

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Saturday, November 29, 2008

O poder militar brasileiro e seus dilemas: quantidade ou qualidade?

 Em pesquisas recentes que fiz em sites e revistas especializadas em questões de defesa, um tópico que é recorrente é o da irrelevância militar brasileira. Para muitos analistas, a fraqueza das nossas Forças Armadas chegou a tal ponto que não seriamos mais capazes nem de proteger a soberania nacional frente a ameaças externas e internas, nem de projetar poder em possíveis missões militares no exterior. Pior: seria pela falta de um poder militar de peso que o Brasil não seria respeitado no cenário internacional e nem teria apoio para suas reivindicações, como um assento no Conselho de Segurança da ONU. Vamos examinar um pouco estas alegações. A proteção do Estado frente a ameaças internas não parece estar em questão. Mesmo com grupos armados dominando as periferias das grandes cidades, ainda não chegou o momento em que as forças legais estejam numa situação de colapso e/ou de incapacidade de proteger a ordem constituída, se convocadas pelas autoridades competentes. Já a avaliação sobre a nossa capacidade de proteção da soberania nacional frente a ameaças do exterior depende, evidentemente, de que ameaças estamos falando. Realmente, se a idéia é proteger nossas fronteiras contra contrabandistas, grupos guerrilheiros, pesca ilegal, etc., a situação é complicada. Apesar dos reforços enviados à Amazônia nos últimos anos e da criação do SIVAM, boa parte das fronteiras e do espaço aéreo e marítimo brasileiros está exposta e isso é um problema que precisaria ser equacionado, e com urgência. No que se refere a ameaças de outros Estados, é pouco provável que tenhamos que temer algum dos nossos vizinhos e nenhum deles teria, ao menos no presente momento, condições de nos vencer. Se, no entanto, houver mesmo o tão falado, nesses dias, rearmamento da América Latina, teríamos que nos preocupar um pouco, não com os riscos de uma invasão, mas o de ficarmos sem opções militares em caso de problemas nas imediações. Quanto a ameaças de grandes potências militares, creio que a única a se temer realmente é a dos Estados Unidos, simplesmente porque são os únicos a terem capacidade de projeção de poder para, se não nos conquistar, causar danos substanciais ao país. Uma guerra entre Brasil e Estados Unidos, contudo, é quase inconcebível e, de qualquer forma, não haveria como nos prepararmos para ela, dado o diferencial de forças. Portanto, nesse caso, a soberania já está potencialmente comprometida, mas não há muito o que se possa fazer. Quanto à incapacidade de projeção de poder em missões no exterior, ela é mais do que clara. Podemos muito bem enviar uma missão de paz para o Haiti, mas apenas com apoio da potência dominante na região, ou seja, os Estados Unidos, e com apoio financeiro da ONU. No atual estado do poder militar brasileiro, imaginar que nós pudéssemos bloquear as costas de Angola com submarinos durante uma crise ou enviar uma expedição militar para ocupar os campos de gás da Bolívia (como algumas pessoas parecem ter pensado durante a crise do ano passado) seria quase um devaneio. Que essa incapacidade (e a falta de um poder militar substantivo) é um impedimento a um maior destaque brasileiro no plano internacional, é um fato. Mesmo num mundo em que a guerra foi abolida como forma de resolução de problemas entre os grandes Estados, dispor de uma máquina militar de peso é fundamental para ser notado. Não é o único elemento, claro, mas é de importância chave. Portanto, a avaliação que faço a respeito das conseqüências da nossa fraqueza militar atual – que é real – é que ela não ameaça, ainda, a ordem interna e que ataques potenciais à nossa soberania por grandes potências existem, mas que não são nem prováveis nem equacionáveis. Os problemas reais com que devemos nos defrontar são o controle das nossas fronteiras e do nosso espaço marítimo e aéreo, os riscos de nos tornarmos irrelevantes mesmo em termos regionais e nossa incapacidade em projetar poder, mesmo em escala modesta. Uma resposta para isto, que sempre aparece nas fontes de informação que acessei, é que as Forças Armadas brasileiras precisam, urgentemente, de aumento de efetivo e de orçamento. O raciocínio básico por trás dessa resposta envolve cálculos comparativos entre os vários países do mundo, normalmente relacionando elementos como população, território, PIB, orçamento militar e efetivo das Forças Armadas. Assim, comparam-se dados como efetivo militar em relação à população e área do país, chegando-se sempre à constatação de que países muito menores e menos povoados do que o Brasil têm, proporcionalmente, muito mais homens em armas. Estes cálculos sempre acabam por chegar a mesma conclusão: se o Brasil quer restaurar seu poder militar, é fundamental aumentar os efetivos das Forças Armadas, dobrando-as ou triplicando-as, de forma a dotar o país de um efetivo militar compatível com seu território e população. O mesmo pode ser dito da relação PIB/gasto militar. Calcula-se a média mundial em termos de gasto militar, seja dividindo-o pelo número de habitantes, seja como proporção da riqueza nacional. Assim, respeitando-se esta lógica, novamente os gastos militares brasileiros estão abaixo da média mundial e precisariam ser dobrados ou triplicados para termos uma força razoável dentro dos padrões internacionais. Esses cálculos são sempre comprometidos pelo tradicional problema da confiabilidade dos números, pois os gastos militares são sempre avaliados de formas diversas e com interesses diversos. Além disso, equívocos estatísticos são cometidos, como, por exemplo, retirar a Austrália e o Canadá da lista por terem vastas áreas desabitadas, esquecendo-se que o mesmo poderia ser dito de boa parte da Amazônia brasileira. Em essência, contudo, o diagnóstico é correto e o Brasil mantém menos homens nas fileiras e gasta, efetivamente, menos com suas forças militares do que outros países. O problema é que estes números não dizem muito. Eles podem indicar se um dado país gasta mais ou menos do que a média mundial, mas não servem de parâmetro para determinar se o gasto e o efetivo militar são insuficientes, adequados ou excessivos. Isso só pode ser determinado a partir dos riscos efetivos ou potenciais que um país sofre e suas pretensões no cenário internacional. Assim, não espanta que a Síria, numa contínua tensão com Israel e os Estados Unidos, tenha muito mais homens em armas e um orçamento militar maior do que um outro com população e área semelhantes, como o Senegal. É a avaliação das necessidades e possibilidades que explicam o maior ou menor poder militar e não uma fórmula matemática precisa. Também conta, evidentemente, a capacidade econômica de um país para sustentar suas ambições no plano militar (sendo natural que a França seja capaz de investir mais no seu aparato bélico do que a Tailândia) e os interesses de grupos de pressão e políticos que podem aumentar ou diminuir os efetivos e gastos conforme interesses específicos no plano interno. Não obstante, mesmo se concordarmos que as análises aritméticas não funcionam, não resta dúvida, como já mencionado, que a capacidade militar brasileira demanda cuidados urgentes. Mas, para que se possa caminhar nessa direção, a necessidade maior não é a do aumento do efetivo e nem do orçamento militar. Pelo contrário, é a definição de prioridades estratégicas e a racionalização dos recursos.. Realmente, temos que identificar, antes de mais nada, quais são as nossas prioridades estratégicas e os objetivos das Forças Armadas. Se elas devem proteger a Amazônia de ameaças localizadas, o investimento em barcos de patrulha, tropas de selva e de fronteira é mais conveniente do que em unidades blindadas e porta-aviões. Se temos a intenção de tornar dispendiosa uma possível intervenção de uma grande potência no nosso mar territorial, o projeto do submarino nuclear deveria sair do papel. Enfim, conforme a identificação do problema é que se pode investir. Tentar, como se faz hoje, dar conta de tudo, é, dadas as nossas limitações financeiras, comprovadamente inútil. Quanto a aumentos no orçamento militar, eles podem ser até aceitáveis no caso de um ciclo de crescimento econômico melhorar as condições financeiras do Estado e/ou surgir alguma ameaça. Mas, no presente momento, com a escassez de recursos e as carências sem fim desse país, um aumento dos gastos bélicos seria indefensável, o que destaca ainda mais a necessidade de racionalizar os gastos. O ideal seria termos quantidade e qualidade, mas, sendo impossível, é o momento de optar pelo mais adequado para ampliar a eficiência de nossas forças frente às nossas prioridades estratégicas. Num país com a democracia consolidada, sem grandes ameaças na vizinhança e com pretensões de se tornar mais reconhecido internacionalmente, como o Brasil, a opção pela qualidade me parece a correta. Realmente, talvez fosse o caso não de aumentar os efetivos, mas de cortá-los. Se, ao invés de 300 mil homens em armas, tivéssemos apenas 200 mil, mas com o mesmo orçamento, não seria possível armá-los e equipá-los melhor? De setenta a oitenta por cento do orçamento das Forças Armadas brasileiras é destinado a gastos correntes e com pessoal e, nesse quadro, sobra muito pouco para investimentos. Não seria melhor dispor de uma Força Aérea com alguns milhares de homens a menos, mas com caças de último tipo? Ou de um Exército enxuto, mas com soldados profissionais e modernos sistemas de comunicações e reconhecimento? Em resumo, menos homens em uniforme com o mesmo orçamento representariam mais eficiência e não menos. E a definição de onde cortar e em que lugar investir o dinheiro apurado, claro, só poderia vir da definição prévia das prioridades. o que revela como as duas coisas estão relacionadas. Assim, apesar de concordar com a opinião geral de que nosso aparato militar apresenta deficiências sérias e que isso é um elemento que afeta as pretensões internacionais brasileiras, não posso compartilhar da idéia de que substanciais aumentos de efetivo e gastos sejam necessários e mesmo válidos. Se aumentarmos os dois elementos na mesma proporção, daríamos emprego a muita gente e perspectivas de carreira se abririam. Mas teríamos apenas mais do mesmo e não uma real mudança para melhor.
 Em pesquisas recentes que fiz em sites e revistas especializadas em questões de defesa, um tópico que é recorrente é o da irrelevância militar brasileira. Para muitos analistas, a fraqueza das nossas Forças Armadas chegou a tal ponto que não seriamos mais capazes nem de proteger a soberania nacional frente a ameaças externas e internas, nem de projetar poder em possíveis missões militares no exterior. Pior: seria pela falta de um poder militar de peso que o Brasil não seria respeitado no cenário internacional e nem teria apoio para suas reivindicações, como um assento no Conselho de Segurança da ONU. Vamos examinar um pouco estas alegações. A proteção do Estado frente a ameaças internas não parece estar em questão. Mesmo com grupos armados dominando as periferias das grandes cidades, ainda não chegou o momento em que as forças legais estejam numa situação de colapso e/ou de incapacidade de proteger a ordem constituída, se convocadas pelas autoridades competentes. Já a avaliação sobre a nossa capacidade de proteção da soberania nacional frente a ameaças do exterior depende, evidentemente, de que ameaças estamos falando. Realmente, se a idéia é proteger nossas fronteiras contra contrabandistas, grupos guerrilheiros, pesca ilegal, etc., a situação é complicada. Apesar dos reforços enviados à Amazônia nos últimos anos e da criação do SIVAM, boa parte das fronteiras e do espaço aéreo e marítimo brasileiros está exposta e isso é um problema que precisaria ser equacionado, e com urgência. No que se refere a ameaças de outros Estados, é pouco provável que tenhamos que temer algum dos nossos vizinhos e nenhum deles teria, ao menos no presente momento, condições de nos vencer. Se, no entanto, houver mesmo o tão falado, nesses dias, rearmamento da América Latina, teríamos que nos preocupar um pouco, não com os riscos de uma invasão, mas o de ficarmos sem opções militares em caso de problemas nas imediações. Quanto a ameaças de grandes potências militares, creio que a única a se temer realmente é a dos Estados Unidos, simplesmente porque são os únicos a terem capacidade de projeção de poder para, se não nos conquistar, causar danos substanciais ao país. Uma guerra entre Brasil e Estados Unidos, contudo, é quase inconcebível e, de qualquer forma, não haveria como nos prepararmos para ela, dado o diferencial de forças. Portanto, nesse caso, a soberania já está potencialmente comprometida, mas não há muito o que se possa fazer. Quanto à incapacidade de projeção de poder em missões no exterior, ela é mais do que clara. Podemos muito bem enviar uma missão de paz para o Haiti, mas apenas com apoio da potência dominante na região, ou seja, os Estados Unidos, e com apoio financeiro da ONU. No atual estado do poder militar brasileiro, imaginar que nós pudéssemos bloquear as costas de Angola com submarinos durante uma crise ou enviar uma expedição militar para ocupar os campos de gás da Bolívia (como algumas pessoas parecem ter pensado durante a crise do ano passado) seria quase um devaneio. Que essa incapacidade (e a falta de um poder militar substantivo) é um impedimento a um maior destaque brasileiro no plano internacional, é um fato. Mesmo num mundo em que a guerra foi abolida como forma de resolução de problemas entre os grandes Estados, dispor de uma máquina militar de peso é fundamental para ser notado. Não é o único elemento, claro, mas é de importância chave. Portanto, a avaliação que faço a respeito das conseqüências da nossa fraqueza militar atual – que é real – é que ela não ameaça, ainda, a ordem interna e que ataques potenciais à nossa soberania por grandes potências existem, mas que não são nem prováveis nem equacionáveis. Os problemas reais com que devemos nos defrontar são o controle das nossas fronteiras e do nosso espaço marítimo e aéreo, os riscos de nos tornarmos irrelevantes mesmo em termos regionais e nossa incapacidade em projetar poder, mesmo em escala modesta. Uma resposta para isto, que sempre aparece nas fontes de informação que acessei, é que as Forças Armadas brasileiras precisam, urgentemente, de aumento de efetivo e de orçamento. O raciocínio básico por trás dessa resposta envolve cálculos comparativos entre os vários países do mundo, normalmente relacionando elementos como população, território, PIB, orçamento militar e efetivo das Forças Armadas. Assim, comparam-se dados como efetivo militar em relação à população e área do país, chegando-se sempre à constatação de que países muito menores e menos povoados do que o Brasil têm, proporcionalmente, muito mais homens em armas. Estes cálculos sempre acabam por chegar a mesma conclusão: se o Brasil quer restaurar seu poder militar, é fundamental aumentar os efetivos das Forças Armadas, dobrando-as ou triplicando-as, de forma a dotar o país de um efetivo militar compatível com seu território e população. O mesmo pode ser dito da relação PIB/gasto militar. Calcula-se a média mundial em termos de gasto militar, seja dividindo-o pelo número de habitantes, seja como proporção da riqueza nacional. Assim, respeitando-se esta lógica, novamente os gastos militares brasileiros estão abaixo da média mundial e precisariam ser dobrados ou triplicados para termos uma força razoável dentro dos padrões internacionais. Esses cálculos são sempre comprometidos pelo tradicional problema da confiabilidade dos números, pois os gastos militares são sempre avaliados de formas diversas e com interesses diversos. Além disso, equívocos estatísticos são cometidos, como, por exemplo, retirar a Austrália e o Canadá da lista por terem vastas áreas desabitadas, esquecendo-se que o mesmo poderia ser dito de boa parte da Amazônia brasileira. Em essência, contudo, o diagnóstico é correto e o Brasil mantém menos homens nas fileiras e gasta, efetivamente, menos com suas forças militares do que outros países. O problema é que estes números não dizem muito. Eles podem indicar se um dado país gasta mais ou menos do que a média mundial, mas não servem de parâmetro para determinar se o gasto e o efetivo militar são insuficientes, adequados ou excessivos. Isso só pode ser determinado a partir dos riscos efetivos ou potenciais que um país sofre e suas pretensões no cenário internacional. Assim, não espanta que a Síria, numa contínua tensão com Israel e os Estados Unidos, tenha muito mais homens em armas e um orçamento militar maior do que um outro com população e área semelhantes, como o Senegal. É a avaliação das necessidades e possibilidades que explicam o maior ou menor poder militar e não uma fórmula matemática precisa. Também conta, evidentemente, a capacidade econômica de um país para sustentar suas ambições no plano militar (sendo natural que a França seja capaz de investir mais no seu aparato bélico do que a Tailândia) e os interesses de grupos de pressão e políticos que podem aumentar ou diminuir os efetivos e gastos conforme interesses específicos no plano interno. Não obstante, mesmo se concordarmos que as análises aritméticas não funcionam, não resta dúvida, como já mencionado, que a capacidade militar brasileira demanda cuidados urgentes. Mas, para que se possa caminhar nessa direção, a necessidade maior não é a do aumento do efetivo e nem do orçamento militar. Pelo contrário, é a definição de prioridades estratégicas e a racionalização dos recursos.. Realmente, temos que identificar, antes de mais nada, quais são as nossas prioridades estratégicas e os objetivos das Forças Armadas. Se elas devem proteger a Amazônia de ameaças localizadas, o investimento em barcos de patrulha, tropas de selva e de fronteira é mais conveniente do que em unidades blindadas e porta-aviões. Se temos a intenção de tornar dispendiosa uma possível intervenção de uma grande potência no nosso mar territorial, o projeto do submarino nuclear deveria sair do papel. Enfim, conforme a identificação do problema é que se pode investir. Tentar, como se faz hoje, dar conta de tudo, é, dadas as nossas limitações financeiras, comprovadamente inútil. Quanto a aumentos no orçamento militar, eles podem ser até aceitáveis no caso de um ciclo de crescimento econômico melhorar as condições financeiras do Estado e/ou surgir alguma ameaça. Mas, no presente momento, com a escassez de recursos e as carências sem fim desse país, um aumento dos gastos bélicos seria indefensável, o que destaca ainda mais a necessidade de racionalizar os gastos. O ideal seria termos quantidade e qualidade, mas, sendo impossível, é o momento de optar pelo mais adequado para ampliar a eficiência de nossas forças frente às nossas prioridades estratégicas. Num país com a democracia consolidada, sem grandes ameaças na vizinhança e com pretensões de se tornar mais reconhecido internacionalmente, como o Brasil, a opção pela qualidade me parece a correta. Realmente, talvez fosse o caso não de aumentar os efetivos, mas de cortá-los. Se, ao invés de 300 mil homens em armas, tivéssemos apenas 200 mil, mas com o mesmo orçamento, não seria possível armá-los e equipá-los melhor? De setenta a oitenta por cento do orçamento das Forças Armadas brasileiras é destinado a gastos correntes e com pessoal e, nesse quadro, sobra muito pouco para investimentos. Não seria melhor dispor de uma Força Aérea com alguns milhares de homens a menos, mas com caças de último tipo? Ou de um Exército enxuto, mas com soldados profissionais e modernos sistemas de comunicações e reconhecimento? Em resumo, menos homens em uniforme com o mesmo orçamento representariam mais eficiência e não menos. E a definição de onde cortar e em que lugar investir o dinheiro apurado, claro, só poderia vir da definição prévia das prioridades. o que revela como as duas coisas estão relacionadas. Assim, apesar de concordar com a opinião geral de que nosso aparato militar apresenta deficiências sérias e que isso é um elemento que afeta as pretensões internacionais brasileiras, não posso compartilhar da idéia de que substanciais aumentos de efetivo e gastos sejam necessários e mesmo válidos. Se aumentarmos os dois elementos na mesma proporção, daríamos emprego a muita gente e perspectivas de carreira se abririam. Mas teríamos apenas mais do mesmo e não uma real mudança para melhor.
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Tuesday, May 20, 2008

Rússia realiza maior desfile militar desde o fim da URSS

8 mil homens e 110 veículos pesados passaram pela Praça Vermelha.
As atrações foram as baterias antiaéreas móveis e os mísseis de até 100 toneladas.

Foto: Peter Thomas/Reuters

A Rússia organizou nesta sexta-feira (9) o maior desfile militar do país desde a queda da União Soviética, com direito a mísseis nucleares e tanques na Praça Vermelha de Moscou, sob a alegação de comemorar a vitória de 1945 na Segunda Guerra Mundial.

A cerimônia contou com as presenças do novo presidente russo, Dmitri Medvedev, e de seu antecessor, Vladimir Putin, agora primeiro-ministro.

O ministro da Defesa, Anatoli Serdiukov, revistou as tropas do Exército, Aeronáutica e Marinha, vestidas com os novos uniformes desenhados pelo estilista russo Valentin Yudashkin.

Medvedev fez um discurso no qual advertiu para os “conflitos armados” provocados por “ambições irresponsáveis. “A história das guerras mundiais mostra que os conflitos armados não nascem por si sós; são desencadeados por aqueles que impõem suas ambições irresponsáveis aos interesses de países e de continentes, de milhões de pessoas”, disse Medvedev em seu primeiro grande discurso como presidente da Rússia.

Atualmente, a Rússia vive um momento de tensão com os países ocidentais, especialmente com os Estados Unidos, que foram acusados várias vezes pelo ex-presidente Putin de ter uma postura unilateral e intervencionista.

O desfile desta sexta, que pela primeira vez nos últimos 18 anos conta com armamentos pesados, pretende “mostrar nosso crescente potencial em termos de defesa”, afirmara Putin no início da semana.

Moscou não esconde a meta de recuperar seu papel no cenário internacional, apesar da postura resultar em crises com o Ocidente dignas da época da Guerra Fria e de uma crescente ameaça militar na Abkhazia, território separatista pró-russo da antiga república soviética da Geórgia.

Um total de 8.000 homens e 110 equipamentos pesados (tanques, baterias antiaéreas móveis e mísseis de até 100 toneladas) passaram pela Praça Vermelha, assim como 32 aviões e helicópteros.

A Rússia celebra a vitória na Segunda Guerra Mundial em 9 de maio. O conflito acabou na Europa oficialmente em 8 de maio, horário alemão. Porém, devido ao fuso horário já era 9 de maio na Rússia.

Rússia realiza maior desfile militar desde o fim da URSS

8 mil homens e 110 veículos pesados passaram pela Praça Vermelha.
As atrações foram as baterias antiaéreas móveis e os mísseis de até 100 toneladas.

Foto: Peter Thomas/Reuters

A Rússia organizou nesta sexta-feira (9) o maior desfile militar do país desde a queda da União Soviética, com direito a mísseis nucleares e tanques na Praça Vermelha de Moscou, sob a alegação de comemorar a vitória de 1945 na Segunda Guerra Mundial.

A cerimônia contou com as presenças do novo presidente russo, Dmitri Medvedev, e de seu antecessor, Vladimir Putin, agora primeiro-ministro.

O ministro da Defesa, Anatoli Serdiukov, revistou as tropas do Exército, Aeronáutica e Marinha, vestidas com os novos uniformes desenhados pelo estilista russo Valentin Yudashkin.

Medvedev fez um discurso no qual advertiu para os “conflitos armados” provocados por “ambições irresponsáveis. “A história das guerras mundiais mostra que os conflitos armados não nascem por si sós; são desencadeados por aqueles que impõem suas ambições irresponsáveis aos interesses de países e de continentes, de milhões de pessoas”, disse Medvedev em seu primeiro grande discurso como presidente da Rússia.

Atualmente, a Rússia vive um momento de tensão com os países ocidentais, especialmente com os Estados Unidos, que foram acusados várias vezes pelo ex-presidente Putin de ter uma postura unilateral e intervencionista.

O desfile desta sexta, que pela primeira vez nos últimos 18 anos conta com armamentos pesados, pretende “mostrar nosso crescente potencial em termos de defesa”, afirmara Putin no início da semana.

Moscou não esconde a meta de recuperar seu papel no cenário internacional, apesar da postura resultar em crises com o Ocidente dignas da época da Guerra Fria e de uma crescente ameaça militar na Abkhazia, território separatista pró-russo da antiga república soviética da Geórgia.

Um total de 8.000 homens e 110 equipamentos pesados (tanques, baterias antiaéreas móveis e mísseis de até 100 toneladas) passaram pela Praça Vermelha, assim como 32 aviões e helicópteros.

A Rússia celebra a vitória na Segunda Guerra Mundial em 9 de maio. O conflito acabou na Europa oficialmente em 8 de maio, horário alemão. Porém, devido ao fuso horário já era 9 de maio na Rússia.

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Wednesday, September 12, 2007

Rússia amplia influência na Ásia com venda de armas

Vladimir Putin apresentou armas em Jacarta, na Indonésia, nesta quinta (6).
Principal objetivo é negociar R$ 2 bilhões da indústria bélica.

Foto: Achmad Ibrahim/AP

Achmad Ibrahim/AP
Os presidentes Susilo Bambang Yudhoyono, da Indonésia, e Vladimir Putin, da Rússia (esq.) conversam em Jacarta (Foto: Achmad Ibrahim/AP)

A caminho da reunião de cúpula anual dos líderes da Ásia e do Pacífico a se realizar na Austrália, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, agendou uma rápida parada em Jacarta para esta quinta-feira (6).

No topo das prioridades de Putin está a assinatura de uma transação de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 2 bilhões) em armas que inclui o fornecimento para a Indonésia de dois submarinos da classe Kilo, a primeira de uma pequena frota de navios.

O acordo ocorre na seqüência de outras negociações de venda dos caças usados em combate aéreo avançado Su-27 e Su-30 para a Indonésia, a Malásia e outros países da região, ajudando a fortalecer o posicionamento da Rússia como o principal fornecedor de armas para a Ásia.

Os indícios de que o urso russo deseja retomar seu antigo lugar cativo na Ásia Oriental e Pacífico tornaram-se cada vez mais nítidos nos últimos tempos, segundo analistas.

Foto: Sergey Ponomarev/AP

Sergey Ponomarev/AP
Ônibus pega fogo durante operação de demonstração em campo na cidade de Balashikha, na Rússia (Foto: Sergey Ponomarev/AP)

No dia 8 de agosto, em um episódio que lembrou os tempos da Guerra Fria, dois bombardeiros russos sobrevoaram de modo provocativo a base militar americana na ilha de Guam.

Segundo relatos russos, jatos de combate norte-americanos decolaram para deter a aeronave TU-95 Bear com capacidade de ataque nuclear em uma tradição de décadas atrás, com os pilotos contrapostos trocando sorrisos. Os oficiais americanos negaram que tivesse ocorrido interceptação.

Depois de bater em retirada estratégica da região com o colapso da União Soviética em 1991, a Rússia, segundo analistas, está encabeçando um retorno estável com um plano mais moderno de exercício do poder militar e econômico regional.

O ressurgimento russo na região ainda está nas etapas iniciais, mas poderia exercer um impacto significativo no ambiente estratégico na Ásia oriental e Pacífico nas próximas duas décadas.

De acordo com o mais novo relatório sobre o mercado mundial de armas elaborado pelo Congressional Research Center, os Estados Unidos são o maior negociador de armas do mundo, seguido pela França. A Rússia figura em terceiro lugar, mas já é o principal exportador de armas para a Ásia e está promovendo agressivamente novas vendas de armas.

 

Foto: Sergey Ponomarev/AP

Sergey Ponomarev/AP
Prédio ‘explode’ durante demonstração das armas russas em Balashikha, na Rússia (Foto: Sergey Ponomarev/AP)

O país possui planos ambiciosos a longo prazo para restaurar a força de sua frota esgotada no Pacífico e suas forças no extremo leste. Além disso, o país se tornará cada vez mais fundamental para a segurança energética da Ásia, uma vez que passa a direcionar uma parcela maior das exportações de gás e petróleo para a região.

“A comunidade ocidental e do Pacífico precisa aceitar o fato de que a Rússia está de volta”, declarou Alexey Muraviev, autor de diversos trabalhos sobre a presença militar russa na região. “A Rússia não quer mais se orientar apenas pela agenda Europa-Atlântico”.

Muraviev, analista estratégico da Curtin University of Technology na Austrália, disse que entre as mais claras manifestações do objetivo da Rússia de mais uma vez se tornar um “forte concorrente no Pacífico” estão o uso crescente de exportações de armas para vantagem diplomática e comercial e os planos anunciados de aumentar significativamente o poder de fogo de suas próprias forças militares organizadas na Ásia.

“Seu poder militar está em ascensão”, disse Muraviev.
Alguns aspectos da participação russa em questões militares da região já estão bastante fortificados.

Entre 1998 e 2005, a Rússia fechou acordos de US$ 29,1 bilhões (cerca de R$ 58 bilhões) em vendas de armas para países asiáticos, representando cerca de 37% do mercado, segundo um relatório para o congresso americano sobre transferências de armas para países em desenvolvimento elaborado pelo Congressional Research Service.

Novas transações de armas assinadas pelos Estados Unidos durante esse período representaram cerca de um quarto do mercado.

O consumo de equipamentos bélicos militares da Rússia é liderado por dois clientes tradicionais, a China e a Índia, já que ambos gastam bilhões de dólares para expandir rapidamente seus recursos militares comprando aviões de combate, navios de guerra, submarinos e mísseis russos. A Rússia está intensificando o relacionamento com ambos os países criando programas de parceria para o desenvolvimento de algumas armas e concordando em licenciar a fabricação de outras.

Mas está também em uma busca obstinada por novos clientes.

Na Ásia, como afirma o relatório congressional, “Os esforços de vendas de armas da Rússia, além daqueles com a China e a Índia, estão concentrados no sudeste da Ásia”. O relatório afirma que a Rússia concordou em estipular condições de pagamento mais flexíveis incluindo “troca direta de produtos, compensações, conversão da dívida e, em alguns casos fundamentais, fechamento de acordos significativos de produção licenciada” para tornar as negociações de armas mais atraentes para clientes relativamente pobres.

O acordo mais recente com a Indonésia referente a submarinos da classe Kilo, aviões de combate, helicópteros e tanques depende do acesso a um empréstimo russo de US$ 1 bilhão a ser assinado durante a visita de Putin, a primeira de um líder russo à Indonésia desde a queda da União Soviética.

Putin, que participará neste final de semana do fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico em Sydney, na Austrália, discutirá diversos acordos econômicos com a Indonésia, incluindo um projeto conjunto de fundição de alumínio.

A Rússia também manifestou interesse em construir uma unidade conjunta de lançamento de satélites na ilha de Biak, a leste da Indonésia.

No entanto, o principal foco do envolvimento da Rússia na região até agora foram as exportações de armas. Segundo o cadastro de armas não nucleares das Nações Unidas, a Rússia, nos últimos anos, exportou aviões de combate avançado, helicópteros de ataque, mísseis, tanques e artilharia para países como Malásia, Indonésia, Vietnã, Myanmar, Bangladesh, Laos e Coréia do Sul, normalmente em condições favoráveis aos compradores.

Afora as condições de pagamento, os contratos estrangeiros bilionários ajudaram a sustentar a indústria da defesa russa financeiramente abalada durante o tempo em que as compras nacionais de novos equipamentos estiveram baixas.

As negociações de armas também podem ajudar a Rússia a reconstruir relações diplomáticas e ganhar impulso na região. A Indonésia, que teve bloqueado o acesso a equipamentos e peças militares norte-americanos durante vários anos devido à objeção de Washington ao histórico de direitos humanos do país, sabe o quanto a venda de armas pode servir como ferramenta diplomática. Os Estados Unidos, desde então, restauraram as alianças militares para recompensar a Indonésia pela cooperação em seus esforços contra o terrorismo.

“Os russos não estão vendendo armas indiscriminadamente”, declarou Muraviev. “A Rússia seguiu uma política orientada pelo esquema estratégico. Se isso cria uma sólida base de clientes, mais tarde pode ser transformado em um relacionamento maior”.

Algumas vendas de armas colocaram a Rússia em desacordo com os Estados Unidos e seus aliados regionais. Em 2005, a Rússia fechou um acordo de US$ 700 milhões com o Irã referente a um sistema de defesa aérea de curto alcance. Durante muitos anos a partir de meados da década de 90, a Rússia manteve um acordo com os Estados Unidos de não vender armas para o Irã.

Da mesma maneira, a venda da Rússia dos submarinos classe Kilo para a Indonésia pode não ser um negócio bem aceito por alguns de seus vizinhos.

A Indonésia é cortada por duas das mais importantes vias de navegação do mundo, os Estreitos de Malaca e Sunda, com 75% das importações de petróleo do nordeste da Ásia passando pelo Estreito de Malaca. A venda dos submarinos classe Kilo forneceria à Indonésia uma nova capacidade militar significativa nessas vias marítimas.

 

Atualmente, a Indonésia possui dois submarinos que, devido a problemas técnicos, algumas vezes foram impossibilitados de submergir.

Os planos da Rússia de aumentar a influência na região vão muito além de assumir o papel de negociador de armas. O país anunciou também planos ambiciosos de recuperar o poderio de sua frota do Pacífico e as forças do extremo leste, que sofreram forte declínio após o fim da União Soviética.

O exército russo planeja organizar um novo destacamento do avião de combate atualizado Su-27 e mísseis no extremo leste a partir do ano que vem.

Planeja ainda melhorias na base de submarinos na península de Kamchatka antes do lançamento de uma nova classe de submarinos de propulsão nuclear com míssil balístico previsto para 2010.

Em meados de julho, Vladimir Masorin, comandante-chefe da marinha russa, informou à imprensa russa sobre os planos de construir seis porta-aviões, sendo três baseados nos reformados portos navais do Pacífico.

Ainda assim, concretizar a ambição de restaurar o poder militar russo na Ásia Oriental e Pacífico seria um processo lento e caro. O programa de porta-aviões exigiria um enorme comprometimento incluindo navios escolta e uma gigantesca base logística. A Rússia, que tinha dois porta-aviões baseados nos portos do Pacífico durante a era soviética, agora possui apenas um em toda a marinha. O navio chegou a ficar dois anos atracado devido à falta de recursos para operá-lo.

Masorin acredita que o primeiro porta-aviões novo estará em operação em 2015, porém o programa completo demoraria 20 a 30 anos para ser concluído, segundo reportagem do jornal russo Krasnaya Zvezda da edição de 10 de julho.

Peter Rutland, da Wesleyan University em Connecticut, especialista em Rússia e em suas relações com a Ásia, disse que o exército russo terá que superar diversos obstáculos complexos, incluindo a terrível escassez de mão-de-obra qualificada, se quiser reafirmar seu poderio militar na região.

“É uma situação muito lamentável”, declarou Rutland do exército russo. “Eles simplesmente deixaram toda a infra-estrutura deteriorar”.

Rutland defendeu a idéia de que as fontes de energia russas possuem a verdadeira chave para suas ambições na região. Ele estima que o tão adiado oleoduto de exportação para o petróleo da Sibéria, aliado a projetos na ilha Sakhalin, aumentaria a parcela de petróleo russo exportada para a Ásia para 30% em 2020, comparados com os atuais 3%.

Isso seria uma vantagem para a segurança energética dos países asiáticos que atualmente dependem do Oriente Médio para a obtenção de três quartos do seu suprimento de petróleo, transportado por vias marítimas que poderiam ser obstruídas em um eventual conflito.

Isso também aumentaria significativamente a influência da Rússia na área.

Vladimir Putin apresentou armas em Jacarta, na Indonésia, nesta quinta (6).
Principal objetivo é negociar R$ 2 bilhões da indústria bélica.

Foto: Achmad Ibrahim/AP

Achmad Ibrahim/AP
Os presidentes Susilo Bambang Yudhoyono, da Indonésia, e Vladimir Putin, da Rússia (esq.) conversam em Jacarta (Foto: Achmad Ibrahim/AP)

A caminho da reunião de cúpula anual dos líderes da Ásia e do Pacífico a se realizar na Austrália, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, agendou uma rápida parada em Jacarta para esta quinta-feira (6).

No topo das prioridades de Putin está a assinatura de uma transação de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 2 bilhões) em armas que inclui o fornecimento para a Indonésia de dois submarinos da classe Kilo, a primeira de uma pequena frota de navios.

O acordo ocorre na seqüência de outras negociações de venda dos caças usados em combate aéreo avançado Su-27 e Su-30 para a Indonésia, a Malásia e outros países da região, ajudando a fortalecer o posicionamento da Rússia como o principal fornecedor de armas para a Ásia.

Os indícios de que o urso russo deseja retomar seu antigo lugar cativo na Ásia Oriental e Pacífico tornaram-se cada vez mais nítidos nos últimos tempos, segundo analistas.

Foto: Sergey Ponomarev/AP

Sergey Ponomarev/AP
Ônibus pega fogo durante operação de demonstração em campo na cidade de Balashikha, na Rússia (Foto: Sergey Ponomarev/AP)

No dia 8 de agosto, em um episódio que lembrou os tempos da Guerra Fria, dois bombardeiros russos sobrevoaram de modo provocativo a base militar americana na ilha de Guam.

Segundo relatos russos, jatos de combate norte-americanos decolaram para deter a aeronave TU-95 Bear com capacidade de ataque nuclear em uma tradição de décadas atrás, com os pilotos contrapostos trocando sorrisos. Os oficiais americanos negaram que tivesse ocorrido interceptação.

Depois de bater em retirada estratégica da região com o colapso da União Soviética em 1991, a Rússia, segundo analistas, está encabeçando um retorno estável com um plano mais moderno de exercício do poder militar e econômico regional.

O ressurgimento russo na região ainda está nas etapas iniciais, mas poderia exercer um impacto significativo no ambiente estratégico na Ásia oriental e Pacífico nas próximas duas décadas.

De acordo com o mais novo relatório sobre o mercado mundial de armas elaborado pelo Congressional Research Center, os Estados Unidos são o maior negociador de armas do mundo, seguido pela França. A Rússia figura em terceiro lugar, mas já é o principal exportador de armas para a Ásia e está promovendo agressivamente novas vendas de armas.

 

Foto: Sergey Ponomarev/AP

Sergey Ponomarev/AP
Prédio ‘explode’ durante demonstração das armas russas em Balashikha, na Rússia (Foto: Sergey Ponomarev/AP)

O país possui planos ambiciosos a longo prazo para restaurar a força de sua frota esgotada no Pacífico e suas forças no extremo leste. Além disso, o país se tornará cada vez mais fundamental para a segurança energética da Ásia, uma vez que passa a direcionar uma parcela maior das exportações de gás e petróleo para a região.

“A comunidade ocidental e do Pacífico precisa aceitar o fato de que a Rússia está de volta”, declarou Alexey Muraviev, autor de diversos trabalhos sobre a presença militar russa na região. “A Rússia não quer mais se orientar apenas pela agenda Europa-Atlântico”.

Muraviev, analista estratégico da Curtin University of Technology na Austrália, disse que entre as mais claras manifestações do objetivo da Rússia de mais uma vez se tornar um “forte concorrente no Pacífico” estão o uso crescente de exportações de armas para vantagem diplomática e comercial e os planos anunciados de aumentar significativamente o poder de fogo de suas próprias forças militares organizadas na Ásia.

“Seu poder militar está em ascensão”, disse Muraviev.
Alguns aspectos da participação russa em questões militares da região já estão bastante fortificados.

Entre 1998 e 2005, a Rússia fechou acordos de US$ 29,1 bilhões (cerca de R$ 58 bilhões) em vendas de armas para países asiáticos, representando cerca de 37% do mercado, segundo um relatório para o congresso americano sobre transferências de armas para países em desenvolvimento elaborado pelo Congressional Research Service.

Novas transações de armas assinadas pelos Estados Unidos durante esse período representaram cerca de um quarto do mercado.

O consumo de equipamentos bélicos militares da Rússia é liderado por dois clientes tradicionais, a China e a Índia, já que ambos gastam bilhões de dólares para expandir rapidamente seus recursos militares comprando aviões de combate, navios de guerra, submarinos e mísseis russos. A Rússia está intensificando o relacionamento com ambos os países criando programas de parceria para o desenvolvimento de algumas armas e concordando em licenciar a fabricação de outras.

Mas está também em uma busca obstinada por novos clientes.

Na Ásia, como afirma o relatório congressional, “Os esforços de vendas de armas da Rússia, além daqueles com a China e a Índia, estão concentrados no sudeste da Ásia”. O relatório afirma que a Rússia concordou em estipular condições de pagamento mais flexíveis incluindo “troca direta de produtos, compensações, conversão da dívida e, em alguns casos fundamentais, fechamento de acordos significativos de produção licenciada” para tornar as negociações de armas mais atraentes para clientes relativamente pobres.

O acordo mais recente com a Indonésia referente a submarinos da classe Kilo, aviões de combate, helicópteros e tanques depende do acesso a um empréstimo russo de US$ 1 bilhão a ser assinado durante a visita de Putin, a primeira de um líder russo à Indonésia desde a queda da União Soviética.

Putin, que participará neste final de semana do fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico em Sydney, na Austrália, discutirá diversos acordos econômicos com a Indonésia, incluindo um projeto conjunto de fundição de alumínio.

A Rússia também manifestou interesse em construir uma unidade conjunta de lançamento de satélites na ilha de Biak, a leste da Indonésia.

No entanto, o principal foco do envolvimento da Rússia na região até agora foram as exportações de armas. Segundo o cadastro de armas não nucleares das Nações Unidas, a Rússia, nos últimos anos, exportou aviões de combate avançado, helicópteros de ataque, mísseis, tanques e artilharia para países como Malásia, Indonésia, Vietnã, Myanmar, Bangladesh, Laos e Coréia do Sul, normalmente em condições favoráveis aos compradores.

Afora as condições de pagamento, os contratos estrangeiros bilionários ajudaram a sustentar a indústria da defesa russa financeiramente abalada durante o tempo em que as compras nacionais de novos equipamentos estiveram baixas.

As negociações de armas também podem ajudar a Rússia a reconstruir relações diplomáticas e ganhar impulso na região. A Indonésia, que teve bloqueado o acesso a equipamentos e peças militares norte-americanos durante vários anos devido à objeção de Washington ao histórico de direitos humanos do país, sabe o quanto a venda de armas pode servir como ferramenta diplomática. Os Estados Unidos, desde então, restauraram as alianças militares para recompensar a Indonésia pela cooperação em seus esforços contra o terrorismo.

“Os russos não estão vendendo armas indiscriminadamente”, declarou Muraviev. “A Rússia seguiu uma política orientada pelo esquema estratégico. Se isso cria uma sólida base de clientes, mais tarde pode ser transformado em um relacionamento maior”.

Algumas vendas de armas colocaram a Rússia em desacordo com os Estados Unidos e seus aliados regionais. Em 2005, a Rússia fechou um acordo de US$ 700 milhões com o Irã referente a um sistema de defesa aérea de curto alcance. Durante muitos anos a partir de meados da década de 90, a Rússia manteve um acordo com os Estados Unidos de não vender armas para o Irã.

Da mesma maneira, a venda da Rússia dos submarinos classe Kilo para a Indonésia pode não ser um negócio bem aceito por alguns de seus vizinhos.

A Indonésia é cortada por duas das mais importantes vias de navegação do mundo, os Estreitos de Malaca e Sunda, com 75% das importações de petróleo do nordeste da Ásia passando pelo Estreito de Malaca. A venda dos submarinos classe Kilo forneceria à Indonésia uma nova capacidade militar significativa nessas vias marítimas.

 

Atualmente, a Indonésia possui dois submarinos que, devido a problemas técnicos, algumas vezes foram impossibilitados de submergir.

Os planos da Rússia de aumentar a influência na região vão muito além de assumir o papel de negociador de armas. O país anunciou também planos ambiciosos de recuperar o poderio de sua frota do Pacífico e as forças do extremo leste, que sofreram forte declínio após o fim da União Soviética.

O exército russo planeja organizar um novo destacamento do avião de combate atualizado Su-27 e mísseis no extremo leste a partir do ano que vem.

Planeja ainda melhorias na base de submarinos na península de Kamchatka antes do lançamento de uma nova classe de submarinos de propulsão nuclear com míssil balístico previsto para 2010.

Em meados de julho, Vladimir Masorin, comandante-chefe da marinha russa, informou à imprensa russa sobre os planos de construir seis porta-aviões, sendo três baseados nos reformados portos navais do Pacífico.

Ainda assim, concretizar a ambição de restaurar o poder militar russo na Ásia Oriental e Pacífico seria um processo lento e caro. O programa de porta-aviões exigiria um enorme comprometimento incluindo navios escolta e uma gigantesca base logística. A Rússia, que tinha dois porta-aviões baseados nos portos do Pacífico durante a era soviética, agora possui apenas um em toda a marinha. O navio chegou a ficar dois anos atracado devido à falta de recursos para operá-lo.

Masorin acredita que o primeiro porta-aviões novo estará em operação em 2015, porém o programa completo demoraria 20 a 30 anos para ser concluído, segundo reportagem do jornal russo Krasnaya Zvezda da edição de 10 de julho.

Peter Rutland, da Wesleyan University em Connecticut, especialista em Rússia e em suas relações com a Ásia, disse que o exército russo terá que superar diversos obstáculos complexos, incluindo a terrível escassez de mão-de-obra qualificada, se quiser reafirmar seu poderio militar na região.

“É uma situação muito lamentável”, declarou Rutland do exército russo. “Eles simplesmente deixaram toda a infra-estrutura deteriorar”.

Rutland defendeu a idéia de que as fontes de energia russas possuem a verdadeira chave para suas ambições na região. Ele estima que o tão adiado oleoduto de exportação para o petróleo da Sibéria, aliado a projetos na ilha Sakhalin, aumentaria a parcela de petróleo russo exportada para a Ásia para 30% em 2020, comparados com os atuais 3%.

Isso seria uma vantagem para a segurança energética dos países asiáticos que atualmente dependem do Oriente Médio para a obtenção de três quartos do seu suprimento de petróleo, transportado por vias marítimas que poderiam ser obstruídas em um eventual conflito.

Isso também aumentaria significativamente a influência da Rússia na área.

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Tuesday, August 7, 2007

Não estamos prontos para crescer

O apagão generalizado na infra-estrutura, além de causar tragédias como a de Congonhas, solapa a competitividade das empresas e inviabiliza o crescimento do país
Ao longo dos últimos anos, os brasileiros têm recebido demonstrações quase diárias de nosso despreparo para crescer — o desastre de Congonhas representou a última, e mais dramática, evidência dessa situação. Entre as causas do desempenho econômico brasileiro pífio nas últimas duas décadas — incluindo o atual crescimento abaixo da média mundial, mesmo durante uma das fases mais pujantes da história do capitalismo — está o nível de investimento quase inexistente na infra-estrutura. Desde os anos 80, o Brasil deixou de construir estradas, ferrovias, aeroportos, usinas, linhas de transmissão, portos, redes de saneamento, hospitais, presídios — artérias essenciais para a economia e para a sociedade — num ritmo minimamente compatível com as necessidades da população. É claro que o preço seria cobrado. As artérias, sobrecarregadas, estão obstruídas. É como se a infra-estrutura brasileira estivesse enfartando.

O que levou a infra-estrutura do país ao fundo do poço? Raul Velloso, especialista em finanças públicas que fez carreira na área de planejamento estratégico de governos passados, é categórico: “Falta de investimento, falta de capacidade de gerenciamento dos governos e um viés anti-setor privado”. Não é de hoje que o Brasil investe menos que o necessário em infra-estrutura. Isso tem sido uma constante na história, mas a situação se deteriorou gravemente nas últimas duas décadas. “Como o governo não pára de gastar e, ao mesmo tempo, precisa mostrar um orçamento minimamente equilibrado, está sempre sem dinheiro para investir no que importa”, afirma Velloso. Na área de transportes, os investimentos da União, que já foram próximos de 2% do PIB em meados dos anos 70, têm se situado em torno de 0,2% do PIB desde o início da década de 90. É patético. E não é nada diante do que outros países vêm fazendo. Entre os emergentes, o Vietnã está investindo por ano 6% de seu PIB em transportes; a China, 4%; e a Índia, 2%. Não estranha que os três mantenham há anos um ritmo de crescimento que é de duas a três vezes acima do brasileiro.

Por aqui, o baixo investimento em infra-estrutura tem comprometido as possibilidades futuras do país. O próprio governo reconhece. A prova mais barulhenta disso foi o lançamento, no final do ano passado, do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), cuja essência são os investimentos nos setores de base. O PAC, contudo, até agora não saiu do papel. De acordo com estudo realizado pela consultoria MB Associados para a Associação Brasileira da Infra-estrutura e Indústrias de Base (Abdib), as áreas de energia elétrica, transportes, petróleo e gás, saneamento e telecomunicações precisariam receber no mínimo 88 bilhões de reais anualmente ao longo de uma década para conseguir sustentar um crescimento econômico modesto, ao redor de 3,5%. Caso o país queira crescer mais, esse número teria de aumentar. A realidade, no entanto, está longe do ideal. A média nos últimos quatro anos ficou em 63% do necessário. Há setores em que o quadro é ainda pior. Nos de saneamento e de transportes, o investimento foi de um terço do mínimo. Somente a área de telecomunicações — não por coincidência o setor que há uma década foi privatizado — recebeu as inversões necessárias.

Não estamos prontos para crescer

O apagão generalizado na infra-estrutura, além de causar tragédias como a de Congonhas, solapa a competitividade das empresas e inviabiliza o crescimento do país
Ao longo dos últimos anos, os brasileiros têm recebido demonstrações quase diárias de nosso despreparo para crescer — o desastre de Congonhas representou a última, e mais dramática, evidência dessa situação. Entre as causas do desempenho econômico brasileiro pífio nas últimas duas décadas — incluindo o atual crescimento abaixo da média mundial, mesmo durante uma das fases mais pujantes da história do capitalismo — está o nível de investimento quase inexistente na infra-estrutura. Desde os anos 80, o Brasil deixou de construir estradas, ferrovias, aeroportos, usinas, linhas de transmissão, portos, redes de saneamento, hospitais, presídios — artérias essenciais para a economia e para a sociedade — num ritmo minimamente compatível com as necessidades da população. É claro que o preço seria cobrado. As artérias, sobrecarregadas, estão obstruídas. É como se a infra-estrutura brasileira estivesse enfartando.

O que levou a infra-estrutura do país ao fundo do poço? Raul Velloso, especialista em finanças públicas que fez carreira na área de planejamento estratégico de governos passados, é categórico: “Falta de investimento, falta de capacidade de gerenciamento dos governos e um viés anti-setor privado”. Não é de hoje que o Brasil investe menos que o necessário em infra-estrutura. Isso tem sido uma constante na história, mas a situação se deteriorou gravemente nas últimas duas décadas. “Como o governo não pára de gastar e, ao mesmo tempo, precisa mostrar um orçamento minimamente equilibrado, está sempre sem dinheiro para investir no que importa”, afirma Velloso. Na área de transportes, os investimentos da União, que já foram próximos de 2% do PIB em meados dos anos 70, têm se situado em torno de 0,2% do PIB desde o início da década de 90. É patético. E não é nada diante do que outros países vêm fazendo. Entre os emergentes, o Vietnã está investindo por ano 6% de seu PIB em transportes; a China, 4%; e a Índia, 2%. Não estranha que os três mantenham há anos um ritmo de crescimento que é de duas a três vezes acima do brasileiro.

Por aqui, o baixo investimento em infra-estrutura tem comprometido as possibilidades futuras do país. O próprio governo reconhece. A prova mais barulhenta disso foi o lançamento, no final do ano passado, do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), cuja essência são os investimentos nos setores de base. O PAC, contudo, até agora não saiu do papel. De acordo com estudo realizado pela consultoria MB Associados para a Associação Brasileira da Infra-estrutura e Indústrias de Base (Abdib), as áreas de energia elétrica, transportes, petróleo e gás, saneamento e telecomunicações precisariam receber no mínimo 88 bilhões de reais anualmente ao longo de uma década para conseguir sustentar um crescimento econômico modesto, ao redor de 3,5%. Caso o país queira crescer mais, esse número teria de aumentar. A realidade, no entanto, está longe do ideal. A média nos últimos quatro anos ficou em 63% do necessário. Há setores em que o quadro é ainda pior. Nos de saneamento e de transportes, o investimento foi de um terço do mínimo. Somente a área de telecomunicações — não por coincidência o setor que há uma década foi privatizado — recebeu as inversões necessárias.

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Friday, August 3, 2007

Escudo antimísseis dos EUA na Europa pode vir a deter armas russas

Após meses de críticas mútuas cada vez mais duras, os Estados Unidos e a Rússia fizeram uma pausa nas hostilidades e firmaram um acordo nesta sexta-feira que permitirá negociar a implantação de um sistema de defesa antimísseis americano no leste europeu. Em vista da oposição ferrenha que os russos vêm impondo ao sistema, no entanto, nada indica que a negociação será bem sucedida.

Para o professor do Departamento de Política e Relações Internacionais da Universidade de Nottingham (Inglaterra) Matthew Rendall, especialista em União Soviética e em ética da dissuasão nuclear, os temores russos não são totalmente infundados. “O sistema de defesa que os americanos querem implementar na Europa pode ser desenvolvido no futuro para ser capaz de derrubar mísseis da Rússia”, afirmou ele por telefone à Folha Online.

26.abr.2007/AP
O presidente russo, Vladimir Putin, ameaçou retarliar escudo americano na Europa
O presidente russo, Vladimir Putin, ameaçou retarliar escudo americano na Europa

Na semana anterior, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, ameaçou retaliar a implantação do escudo antimísseis americano. A proposta dos EUA inclui instalar dez mísseis interceptores na Polônia e um radar ultra-aperfeiçoado na República Tcheca. Apesar das negativas de Washington, Moscou suspeita que os EUA considerem o arsenal de mísseis estratégicos da Rússia como um alvo.

Apesar do cenário de aparente perigo, o professor minimiza o risco. “Na minha opinião, atualmente nem o escudo funcionaria tão bem nem os americanos têm intenções militares contra os russos”, diz Rendall.

“Nem se quisessem, não creio que os EUA podem se sentir seguros de que um ataque contra a Rússia não geraria uma retaliação de graves conseqüências para o território americano. Não acho que os russos devem se preocupar”, acrescenta.

Risco inútil

Segundo o especialista, atualmente o arsenal de mísseis russos é tão grande que é impossível a um escudo ser eficiente no caso de ataque. Mas esse cenário pode mudar se o sistema for aumentado no futuro.

4.mai.2007/AP
A secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice
A secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice

“A chance do arsenal russo se tornar vulnerável a um ataque no futuro e não mais servir como forma de prevenir ações é o que preocupa a Rússia”, afirma.

Ainda que funcione com perfeição, a eficácia do sistema é limitado. O escudo antimísseis é inútil contra bombas levadas por terra e água, por exemplo.

Mesmo que não seja aumentado nem represente risco real para os russos, o desgaste das relações entre a Rússia e os Estados Unidos causado pelo plano já é estrago suficiente, diz Rendall. “Na minha opinião, o suposto benefício de implementar um sistema de defesa no leste europeu não vale a crise com o governo russo.”

Vulnerabilidade

Questionado sobre a credibilidade da tese de que os EUA podem querer aumentar o sistema no futuro, Rendall lembrou que Estados costumam trabalhar tendo em mente os piores cenários possíveis. “Os russos não têm certeza alguma de que os americanos planejem minar sua capacidade de ataque, mas eles não querem correr esse risco.”

As declarações recentes de Putin corroboram a afirmação do especialista. “Esses sistemas [de defesa] irão controlar o território russo até os montes Urais –se, é claro, não fizermos nada a respeito, mas vamos fazer”, afirmou o presidente russo após negociações anteriores com os EUA. Putin comparou a instalação do sistema de defesa ao deslocamento de mísseis americanos na Europa durante a Guerra Fria, e disse que isso irá mudar toda o sistema de segurança da Europa.

Rendall afirma que, para muitos analistas, a capacidade russa está se tornando cada vez mais vulnerável a ataques. A economia russa está tão ruim que não é mais capaz de manter o desenvolvimento de suas armas. Isso daria, para o especialista, uma razão adicional aos russos para se preocuparem com o sistema de defesa americano.

O perigo da Otan

O especialista lembra também que o fato de a Otan (Organização para o Tratado do Atlântico Norte, aliança militar liderada pelos EUA) estar expandindo sua ação para o leste europeu por si só já é um fator de incômodo e preocupação para a Rússia.

11.abr.2007/AP
Secretário de Defesa dos EUA defende acordo sobre escudo
Secretário de Defesa dos EUA defende acordo sobre escudo

“A Rússia acreditava que, após o fim da Guerra Fria, haveria um acordo implícito de que os EUA não buscariam expandir sua influência para o leste europeu”, diz o especialista. “A mera entrada da Polônia e da República Tcheca na Otan já foi motivo de irritação para a Rússia. Colocar um sistema de defesa em seu território com certeza piora a situação.”

Além dos dois países, outros ex-membros do Pacto de Varsóvia (organização militar liderada pela ex-União Soviética durante a Guerra Fria) também fazem parte da Otan, como Bulgária e Hungria –o que não agrada aos russos.

Com o aumento da tensão no leste europeu, Putin anunciou que deixará de cumprir temporariamente um acordo que limita a mobilização de tropas na Europa (o tratado sobre as Forças Convencionais na Europa, ou FCE). Para Rendall, o cancelamento reflete o crescente desacordo entre os EUA e a Rússia no que se refere a armamentos.

“Pessoalmente, creio que a culpa é do governo Bush. Não acho que eles estejam muito interessados no controle de armas”, afirma. O especialista alerta ainda que há um risco, em resposta a esse desinteresse, da volta a uma corrida armamentista por parte da Rússia.

Solução

Para Rendall, a solução para o fim do impasse seria a adoção de tratados sobre controle de armas que tranquilizassem os russos quanto a seu poder de dissuasão. “Tratados inteligentes poderiam minar a capacidade dos EUA de organizarem um ataque à Rússia (e vice-versa) e dessa forma reconfortar os russos”, afirma.

Chris O’Meara/AP
George W. Bush defende a implantanção de um escudo antimísseis no leste europeu
George W. Bush defende a implantanção de um escudo antimísseis no leste europeu

O especialista cita algumas possibilidades. A primeira delas seria banir os MIRVs (sigla para Multiple Independently-targetable Reentry Vehicles, que significa, em termos comuns, mísseis que carregam múltiplas bombas nucleares um único artefato). Os MIRVs já foram banidos no passado, no tratado Start 2, mas o governo Bush cancelou o acordo e hoje ambos os países ainda possuem este tipo de míssil.

Outra possibilidade seria se a Otan reduzisse radicalmente seu arsenal de armas convencionais. Atualmente, segundo Rendall, as armas nucleares são as únicas de que Moscou dispõe para contrabalançar a superioridade ocidental em armamentos convencionais –o que os deixa especialmente preocupados com qualquer coisa, como um escudo, que possa interferir com seu arsenal.

Mas, para isso, diz o especialista, seria preciso um [Mikhail] Gorbatchov, e não um Putin e um George W. Bush no poder. Resta agora esperar o resultado da negociação que será feita entre os dois países sobre o sistema de defesa americano, marcada para iniciar em setembro.

Após meses de críticas mútuas cada vez mais duras, os Estados Unidos e a Rússia fizeram uma pausa nas hostilidades e firmaram um acordo nesta sexta-feira que permitirá negociar a implantação de um sistema de defesa antimísseis americano no leste europeu. Em vista da oposição ferrenha que os russos vêm impondo ao sistema, no entanto, nada indica que a negociação será bem sucedida.

Para o professor do Departamento de Política e Relações Internacionais da Universidade de Nottingham (Inglaterra) Matthew Rendall, especialista em União Soviética e em ética da dissuasão nuclear, os temores russos não são totalmente infundados. “O sistema de defesa que os americanos querem implementar na Europa pode ser desenvolvido no futuro para ser capaz de derrubar mísseis da Rússia”, afirmou ele por telefone à Folha Online.

26.abr.2007/AP
O presidente russo, Vladimir Putin, ameaçou retarliar escudo americano na Europa
O presidente russo, Vladimir Putin, ameaçou retarliar escudo americano na Europa

Na semana anterior, o presidente da Rússia, Vladimir Putin, ameaçou retaliar a implantação do escudo antimísseis americano. A proposta dos EUA inclui instalar dez mísseis interceptores na Polônia e um radar ultra-aperfeiçoado na República Tcheca. Apesar das negativas de Washington, Moscou suspeita que os EUA considerem o arsenal de mísseis estratégicos da Rússia como um alvo.

Apesar do cenário de aparente perigo, o professor minimiza o risco. “Na minha opinião, atualmente nem o escudo funcionaria tão bem nem os americanos têm intenções militares contra os russos”, diz Rendall.

“Nem se quisessem, não creio que os EUA podem se sentir seguros de que um ataque contra a Rússia não geraria uma retaliação de graves conseqüências para o território americano. Não acho que os russos devem se preocupar”, acrescenta.

Risco inútil

Segundo o especialista, atualmente o arsenal de mísseis russos é tão grande que é impossível a um escudo ser eficiente no caso de ataque. Mas esse cenário pode mudar se o sistema for aumentado no futuro.

4.mai.2007/AP
A secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice
A secretária de Estado dos Estados Unidos, Condoleezza Rice

“A chance do arsenal russo se tornar vulnerável a um ataque no futuro e não mais servir como forma de prevenir ações é o que preocupa a Rússia”, afirma.

Ainda que funcione com perfeição, a eficácia do sistema é limitado. O escudo antimísseis é inútil contra bombas levadas por terra e água, por exemplo.

Mesmo que não seja aumentado nem represente risco real para os russos, o desgaste das relações entre a Rússia e os Estados Unidos causado pelo plano já é estrago suficiente, diz Rendall. “Na minha opinião, o suposto benefício de implementar um sistema de defesa no leste europeu não vale a crise com o governo russo.”

Vulnerabilidade

Questionado sobre a credibilidade da tese de que os EUA podem querer aumentar o sistema no futuro, Rendall lembrou que Estados costumam trabalhar tendo em mente os piores cenários possíveis. “Os russos não têm certeza alguma de que os americanos planejem minar sua capacidade de ataque, mas eles não querem correr esse risco.”

As declarações recentes de Putin corroboram a afirmação do especialista. “Esses sistemas [de defesa] irão controlar o território russo até os montes Urais –se, é claro, não fizermos nada a respeito, mas vamos fazer”, afirmou o presidente russo após negociações anteriores com os EUA. Putin comparou a instalação do sistema de defesa ao deslocamento de mísseis americanos na Europa durante a Guerra Fria, e disse que isso irá mudar toda o sistema de segurança da Europa.

Rendall afirma que, para muitos analistas, a capacidade russa está se tornando cada vez mais vulnerável a ataques. A economia russa está tão ruim que não é mais capaz de manter o desenvolvimento de suas armas. Isso daria, para o especialista, uma razão adicional aos russos para se preocuparem com o sistema de defesa americano.

O perigo da Otan

O especialista lembra também que o fato de a Otan (Organização para o Tratado do Atlântico Norte, aliança militar liderada pelos EUA) estar expandindo sua ação para o leste europeu por si só já é um fator de incômodo e preocupação para a Rússia.

11.abr.2007/AP
Secretário de Defesa dos EUA defende acordo sobre escudo
Secretário de Defesa dos EUA defende acordo sobre escudo

“A Rússia acreditava que, após o fim da Guerra Fria, haveria um acordo implícito de que os EUA não buscariam expandir sua influência para o leste europeu”, diz o especialista. “A mera entrada da Polônia e da República Tcheca na Otan já foi motivo de irritação para a Rússia. Colocar um sistema de defesa em seu território com certeza piora a situação.”

Além dos dois países, outros ex-membros do Pacto de Varsóvia (organização militar liderada pela ex-União Soviética durante a Guerra Fria) também fazem parte da Otan, como Bulgária e Hungria –o que não agrada aos russos.

Com o aumento da tensão no leste europeu, Putin anunciou que deixará de cumprir temporariamente um acordo que limita a mobilização de tropas na Europa (o tratado sobre as Forças Convencionais na Europa, ou FCE). Para Rendall, o cancelamento reflete o crescente desacordo entre os EUA e a Rússia no que se refere a armamentos.

“Pessoalmente, creio que a culpa é do governo Bush. Não acho que eles estejam muito interessados no controle de armas”, afirma. O especialista alerta ainda que há um risco, em resposta a esse desinteresse, da volta a uma corrida armamentista por parte da Rússia.

Solução

Para Rendall, a solução para o fim do impasse seria a adoção de tratados sobre controle de armas que tranquilizassem os russos quanto a seu poder de dissuasão. “Tratados inteligentes poderiam minar a capacidade dos EUA de organizarem um ataque à Rússia (e vice-versa) e dessa forma reconfortar os russos”, afirma.

Chris O’Meara/AP
George W. Bush defende a implantanção de um escudo antimísseis no leste europeu
George W. Bush defende a implantanção de um escudo antimísseis no leste europeu

O especialista cita algumas possibilidades. A primeira delas seria banir os MIRVs (sigla para Multiple Independently-targetable Reentry Vehicles, que significa, em termos comuns, mísseis que carregam múltiplas bombas nucleares um único artefato). Os MIRVs já foram banidos no passado, no tratado Start 2, mas o governo Bush cancelou o acordo e hoje ambos os países ainda possuem este tipo de míssil.

Outra possibilidade seria se a Otan reduzisse radicalmente seu arsenal de armas convencionais. Atualmente, segundo Rendall, as armas nucleares são as únicas de que Moscou dispõe para contrabalançar a superioridade ocidental em armamentos convencionais –o que os deixa especialmente preocupados com qualquer coisa, como um escudo, que possa interferir com seu arsenal.

Mas, para isso, diz o especialista, seria preciso um [Mikhail] Gorbatchov, e não um Putin e um George W. Bush no poder. Resta agora esperar o resultado da negociação que será feita entre os dois países sobre o sistema de defesa americano, marcada para iniciar em setembro.

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Wednesday, July 18, 2007

Tragédia nos leva a refletir…até onde continuaremos passivos a ineficiência?!

O Brasil esta chocado com o que acaba de acontecer. Um avião da TAM, que tinha como destino São Paulo, que saia do rio Grande do Sul, derrapa na pista e atinge o predio da TAM do outro lado de uma das mais movimentadas avenidas de São Paulo, causando a morte de centenas de pessoas. Porque isso aconteceu? Porque?

A muitos porques: o Primeiro deles é a falta de infra-estrutura adequada na falida malha aeroportuaria brasileira que esta ao seu limite. Segundo: A corrupção e Incompetência da sua Administradora a INFRAERO, carregada de marginais e fadada ao imobilismo. Terceiro: A falta de uma politica de investimentos em aeroportos eficiente, onde os recursos realmente cheguem ao destino e que as contas sejam prestadas ao população. Bem que neste quesito, todo o tipo de investimento que o governo fizer deverá seguir esta premissa, mas o que vemos é corrupção e uma burocracia dos diabos, ao qual devemos combater a ferro e fogo.

Lamentavél ainda mais que esta tragédia tenha acontecido exatamente a 10 meses de outra tragédia ocorrida com o avião da Gol. Realmente absurdo que o maior país da America do Sul, a 10ªeconomia mundial não tenha vergonha de se mostrar tão ineficente com algo que realmente importa a todos, que é o transporte aereo. O povo vai ficar com medo agora de andar de avião. Não só medo, pois com a crise a area que nos vemos dia-a-dia nos jornais de todo país, nos leva a decidir que é mais em conta viajar de navio e onibus do que de avião….pra que avião….se duvidar prefiro andar a pé….o Brasil atualmente não tem condições de andar de avião. O governo é o maior responsavel por esta tragédia que se mostra mais uma vez a todos os brasileiro, que por incrivel que pareça paga seus impostos.

Como diz Boris Casoy: ISTO É UMA VERGONHA!!!

MINHAS CONDOLENCIAS AS FAMILIAS DAS VITIMAS DA TAM….QUE DEUS AS TENHA.

  

Acidente do vôo 3054 - cobertura completa

Do G1, em São Paulo entre em contato
ALTERA O
TAMANHO DA LETRA

Um avião da TAM com 186 pessoas a bordo derrapou na pista do Aeroporto de Congonhas, na Zona Sul de São Paulo, atravessou a Avenida Washington Luís e bateu em um prédio de carga e descarga da companhia aérea. A aeronave, um Airbus A320, vôo JJ 3054, partiu de Porto Alegre, às 17h16 de terça-feira (17), e chegou a São Paulo às 18h45. O acidente é o maior da aviação no país.

 

Leia abaixo a cobertura completa do acidente:

 

- Plantão G1

- Lista de passageiros e funcionários

- Fotos

- Vídeos

- Notícias

- Entenda o acidente

- VC no G1

- Comunicados oficiais

- Histórico

 

 Fotos

   

Foto: Isabela Noronha

G1
acidente avião TAM, Foto: Isabela Noronha/G1

Clique para ver as imagens do local do acidente com o avião da TAM 

Leitores do G1 enviam imagens do local do acidente com Airbus da TAM 

 

 Vídeos

  

Angústia e indignação entre os parentes das vítimas do vôo JJ 3054 no aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre (RS) 

 

Mais vídeos do acidente:

 

Mais uma tragédia nos céus do Brasil

Jornalista que testemunhou acidente conta o que viu

Ocupantes de avião particular presenciaram o acidente da TAM

Pista de Congonhas assusta pilotos

A maior tragédia da história da aviação brasileira

Tragédia da TAM: corpos são resgatados do local 

Arquivo G1: piores acidentes da aviação brasileira 
Arquivo G1: acidentes em Congonhas 
Porta-voz da presidência fala sobre acidente com avião da TAM 
Engenheiro-aeronáutico fala sobre acidente com avião da TAM 
Testemunha fala sobre acidente com avião da TAM 
Parentes querem lista de passageiros do vôo da TAM 
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Perguntas sem resposta sobre o acidente com o avião da TAM 

 Comunicados oficiais

TAM libera lista de passageiros do vôo JJ 3054 

TAM divulga primeira lista de mortos

TAM divulga comunicado sobre acidente

  

 Notícias

 

18/07/2007

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Estrutura abalada de prédio dificulta resgate, diz coronel

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Vídeos amadores do acidente da TAM vão parar no YouTube

Família de Redecker tenta reconhecer corpo

Presidente do STF lamenta acidente da TAM

Presidente da China envia nota a Lula

Tragédia em SP comove atletas de ouro

Advogada do Rio é mais uma das vítimas de acidente aéreo

Caixa-preta do avião da TAM foi levada para os EUA

Bombeiros confirmam 160 mortos no acidente da TAM

OAB: acidente com avião da TAM é ‘vergonha’

Desastre entristece passageiros vindos de SP

Vítima de desastre dizia que apagão aéreo é ‘descaso do governo’ 

Curiosos se arriscam para acompanhar resgate

Cinco legistas trabalham para identificar mortos

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Vítima do vôo 3054 adiantou sua viagem

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 Histórico

 

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Cronologia de acidentes envolvendo o Airbus A320

O Brasil esta chocado com o que acaba de acontecer. Um avião da TAM, que tinha como destino São Paulo, que saia do rio Grande do Sul, derrapa na pista e atinge o predio da TAM do outro lado de uma das mais movimentadas avenidas de São Paulo, causando a morte de centenas de pessoas. Porque isso aconteceu? Porque?

A muitos porques: o Primeiro deles é a falta de infra-estrutura adequada na falida malha aeroportuaria brasileira que esta ao seu limite. Segundo: A corrupção e Incompetência da sua Administradora a INFRAERO, carregada de marginais e fadada ao imobilismo. Terceiro: A falta de uma politica de investimentos em aeroportos eficiente, onde os recursos realmente cheguem ao destino e que as contas sejam prestadas ao população. Bem que neste quesito, todo o tipo de investimento que o governo fizer deverá seguir esta premissa, mas o que vemos é corrupção e uma burocracia dos diabos, ao qual devemos combater a ferro e fogo.

Lamentavél ainda mais que esta tragédia tenha acontecido exatamente a 10 meses de outra tragédia ocorrida com o avião da Gol. Realmente absurdo que o maior país da America do Sul, a 10ªeconomia mundial não tenha vergonha de se mostrar tão ineficente com algo que realmente importa a todos, que é o transporte aereo. O povo vai ficar com medo agora de andar de avião. Não só medo, pois com a crise a area que nos vemos dia-a-dia nos jornais de todo país, nos leva a decidir que é mais em conta viajar de navio e onibus do que de avião….pra que avião….se duvidar prefiro andar a pé….o Brasil atualmente não tem condições de andar de avião. O governo é o maior responsavel por esta tragédia que se mostra mais uma vez a todos os brasileiro, que por incrivel que pareça paga seus impostos.

Como diz Boris Casoy: ISTO É UMA VERGONHA!!!

MINHAS CONDOLENCIAS AS FAMILIAS DAS VITIMAS DA TAM….QUE DEUS AS TENHA.

  

Acidente do vôo 3054 - cobertura completa

Do G1, em São Paulo entre em contato
ALTERA O
TAMANHO DA LETRA

Um avião da TAM com 186 pessoas a bordo derrapou na pista do Aeroporto de Congonhas, na Zona Sul de São Paulo, atravessou a Avenida Washington Luís e bateu em um prédio de carga e descarga da companhia aérea. A aeronave, um Airbus A320, vôo JJ 3054, partiu de Porto Alegre, às 17h16 de terça-feira (17), e chegou a São Paulo às 18h45. O acidente é o maior da aviação no país.

 

Leia abaixo a cobertura completa do acidente:

 

- Plantão G1

- Lista de passageiros e funcionários

- Fotos

- Vídeos

- Notícias

- Entenda o acidente

- VC no G1

- Comunicados oficiais

- Histórico

 

 Fotos

   

Foto: Isabela Noronha

G1
acidente avião TAM, Foto: Isabela Noronha/G1

Clique para ver as imagens do local do acidente com o avião da TAM 

Leitores do G1 enviam imagens do local do acidente com Airbus da TAM 

 

 Vídeos

  

Angústia e indignação entre os parentes das vítimas do vôo JJ 3054 no aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre (RS) 

 

Mais vídeos do acidente:

 

Mais uma tragédia nos céus do Brasil

Jornalista que testemunhou acidente conta o que viu

Ocupantes de avião particular presenciaram o acidente da TAM

Pista de Congonhas assusta pilotos

A maior tragédia da história da aviação brasileira

Tragédia da TAM: corpos são resgatados do local 

Arquivo G1: piores acidentes da aviação brasileira 
Arquivo G1: acidentes em Congonhas 
Porta-voz da presidência fala sobre acidente com avião da TAM 
Engenheiro-aeronáutico fala sobre acidente com avião da TAM 
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17/07/2007

‘Vira, vira, vira’ foram as últimas palavras do piloto, diz Serra

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 Histórico

 

Pista de Congonhas foi reformada em junho 

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Os mais graves acidentes da história do Brasil

Cronologia de acidentes envolvendo o Airbus A320

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Thursday, April 26, 2007

Tirado de Exame

A bolsa em 50 mil pontos

 | 19.04.2007

Uma economia brasileira mais forte e mais previsível — eis por que a bolsa atrai um volume crescente de capital externo e não pára de bater recordes

 Ao longo das últimas semanas, o mercado financeiro brasileiro foi a mais reluzente vitrine do otimismo que tomou conta da economia do país. Embalada por momentos de euforia, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) quebrou repetidos recordes e virou o principal foco de atenção de investidores espalhados pelo mundo. Dando seqüência a uma escalada que já dura quatro anos, as ações de empresas brasileiras galgaram mais um degrau e fizeram o Indice Bovespa se aproximar do patamar histórico de 50 000 pontos (no dia do fechamento desta edição, ele bateu em 48 755). O movimento é o último ato de uma ascensão impressionante nos negócios da bolsa paulista. Desde 2004, 60 empresas abriram o capital, levantando quase 34 bilhões de reais, e outras dezenas estão na fila para inaugurar seus negócios no mercado acionário. O valor de mercado das companhias de capital aberto no Brasil atingiu o nível recorde de 740 bilhões de dólares, o equivalente a 74% do produto interno bruto — no ano 2000 essa proporção era de apenas 38%. A entrada de capital internacional, por sua vez, é uma onda em franca expansão. Apenas na Bovespa, a movimentação dos investidores estrangeiros nos últimos quatro anos deixou saldo positivo de 18 bilhões de reais. “Há três anos, ninguém queria ouvir falar em investir na América Latina”, diz Andrew Reicher, sócio da Actis, empresa britânica de private equity e primeira estrangeira a entrar no mercado indiano, no início dos anos 90. “Agora já há quem aposte que o Brasil poderá, em algum momento, repetir a trajetória da China depois de Deng Xiaoping e da Índia após a deflagração das reformas da década de 90.”

O vetor ascendente da bolsa

Evolução do Índice Bovespa, em número de pontos(1)
1994 4 354
1999 17 091
2002 11 268
2004 26 196
2007(2) 48 755
(1) Cotação em 31/12 de cada ano
(2) Em 17/4 Fonte: Economática

Pelo menos por ora, tal comparação parece absurda. O desempenho da economia brasileira continua a anos-luz do fabuloso vigor demonstrado por chineses e indianos. Mas a opinião parece refletir uma mudança qualitativa captada pelos analistas econômicos, daqui e de fora, quanto ao momento atual do país. Nas últimas semanas, a reportagem de EXAME ouviu alguns dos mais importantes economistas da atualidade para decifrar o que, afinal, está por trás dos excelentes números da bolsa brasileira. A explicação extrapola os limites estritos do mercado financeiro e tem raiz na economia real do país. A opinião — unânime — é que, aos poucos, o Brasil começa a deixar para trás o marasmo demonstrado até recentemente, quando virou uma espécie de lanterninha na corrida pelo crescimento, e começa, pelo menos, a acompanhar o ritmo da economia mundial. “O país recolocou o ‘B’ à sigla Bric”, diz o economista Kenneth Rogoff, professor da Universidade Harvard e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, em referência ao grupo dos principais países emergentes (Brasil, Rússia, Índia e China). O pífio crescimento brasileiro nos últimos anos já levantava suspeita de que o país deveria ser excluído desse pelotão. “Entramos num círculo virtuoso”, afirma Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-ministro das Comunicações e economista-chefe da Quest Investimentos. “A economia está mais vigorosa, e isso está aumentando o dinamismo do setor privado.”

A velha e a nova bolsa
Veja a evolução da Bovespa após a implantação do Plano Real
O mercado cresceu…
O valor total das empresas listadas aumentou 5 vezes O número médio de negócios por dia é 14 vezes mais
1995 150 1995 8 700
2007(2) 740 2007(2) 122 000
…e deixou de ser chapa-branca
Entre as empresas mais negociadas, hoje apenas uma é estatal(1)
(E)Estatais (P)Privadas
1995 2007(3)
1 Telebrás (E) 1 Petrobras (E)
2 Eletrobrás (E) 2 Vale do Rio Doce (P)
3 Petrobras (E) 3 Bradesco (P)
4 Vale do Rio Doce (E) 4 Usiminas (P)
5 Usiminas (E) 5 CSN (P)
(1) As cinco ações mais negociadas independentemente de ser preferenciais ou ordinárias
(2) Em abril
(3) Em março Fontes: Bovespa, Economática e Rio Bravo
Bons motivos para o capital vir
O Brasil reúne hoje uma série de condições que atraem investidores estrangeiros

A proporção entre a dívida externa e o total das exportações em 2006 ficou em 1,25 — o menor índice em 30 anos

O atual volume de reservas internacionais do país, de 113 bilhões de dólares, é o maior da história
O saldo positivo do balanço de pagamentos bateu recorde no ano passado: 30 bilhões de dólares
O superávit da balança comercial, de 46 bilhões de dólares, também representou seu pico histórico
O risco-país, ao cair para 156 pontos em 9 de abril, pela primeira vez ficou abaixo da média dos países emergentes
Fonte: RC Consultores

Reside aí — no dinamismo do setor privado — a chave para entender o que se passa hoje com o Brasil. São conhecidas as mazelas que há décadas vêm impedindo o desenvolvimento do país, uma extensa lista que inclui um Estado hiperatrofiado que sufoca as empresas, uma burocracia que aniquila o empreendedorismo, uma infra-estrutura de Terceiro Mundo, uma Justiça que não garante um mínimo de regras aos negócios e esforços insuficientes na área de educação. As esperadas reformas, hoje, parecem escanteadas pelo governo. Olhando por aí o que se enxerga é uma fabulosa conspiração para que tudo — inclusive a economia — dê errado. Em algum momento, essa dívida será cobrada. É o que vem acontecendo, por exemplo, com a redução do ritmo de expansão das exportações brasileiras. Em 2004, elas cresceram 32%. No ano passado, o aumento das vendas internacionais foi de 16%. Em 2007, deve ficar em apenas 8%. Olhando para a vida real, porém, o que se vê é uma série de setores que crescem apesar da inércia governamental. O mercado imobiliário está aquecido como há muito tempo não se via. O volume de financiamento para a compra de imóveis dobrou em 2006. Num mundo acuado pelos vaticínios de catástrofes ambientais, o Brasil surge como a maior potência da energia limpa. Cerca de 15 bilhões de dólares — boa parte disso dinheiro internacional — serão investidos na construção de mais de 70 usinas de álcool. Neste ano, a indústria automobilística brasileira deve produzir 2,8 milhões de unidades — uma marca inédita. Grande parte do volume será vendida no mercado interno, sobretudo à base de crédito. Após mergulhar na crise, o agronegócio recuperou seu fôlego, embalado pelo crescimento da demanda mundial por alimentos. Quando tudo poderia dar errado, por que tantas coisas vão bem? Nas palavras de Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e sócio da Rio Bravo Investimentos, é como se existissem hoje dois Brasis. “De um lado, há o Brasil público, representado pelo governo, que está parado e há mais de 20 anos não tem caixa para fazer investimentos”, diz ele. Por outro lado, há o Brasil das empresas, que investe, cresce e se globaliza. Essa face é representada por setores como o siderúrgico, o de telefonia e o bancário, que sofreram profundas transformações após a abertura de mercado e as privatizações nos anos 90. “Esse Brasil cresce a taxas chinesas, disputa espaço com multinacionais e movimenta os negócios no mercado de capitais”, diz Franco.

O mercado de capitais surge como um elemento central nesse novo momento do país — pelo menos daquele país que avança. Durante décadas, a única opção para empresários que buscavam recursos de longo prazo para investir era bater às portas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e torcer para ser agraciado pelos burocratas. O crescimento vertiginoso das captações das empresas na bolsa mudou essa lógica. Desde 2005, ela se transformou na principal fonte de recursos para investimentos. No ano passado, as empresas captaram no mercado cerca de 110 bilhões de reais em emissões de ações, debêntures e outros instrumentos financeiros. O montante representou mais que o dobro dos 52 bilhões liberados pelos BNDES em empréstimos. Com isso, diversos setores da economia estão sendo fartamente irrigados com capital para expansão de negócios, geração de empregos e disseminação de práticas modernas de gestão — e as companhias brasileiras ganham musculatura, vendem mais no exterior e, pela primeira vez, fazem o país enxergar a globalização como uma fabulosa oportunidade.

O mundo vive hoje uma das fases mais pujantes do pós-guerra — este é o sexto ano consecutivo de crescimento firme. Segundo as previsões, a economia global deve crescer 5% neste e no próximo ano, com Estados Unidos e China como principais motores. É uma situação positiva não apenas quantitativa mas também qualitativamente, uma vez que a existência de dois pólos de prosperidade confere mais estabilidade aos negócios. Hoje, a descomunal economia chinesa já funciona como contraponto a um eventual enfraquecimento dos Estados Unidos. E a China, com suas taxas anuais de crescimento de dois dígitos, é um sorvedouro de matérias-primas. Nesse cenário, poucos países são tão beneficiados como o Brasil. O saldo comercial do país, atualmente na faixa de 40 bilhões de dólares anuais, era de apenas 3 bilhões há apenas seis anos. As reservas acumuladas pelo Banco Central, já superiores a 110 bilhões de dólares, com perspectiva de subir até 150 bilhões no final do ano, são uma garantia historicamente inédita, que faz sensível diferença aos olhos dos investidores estrangeiros. “Os riscos de uma nova crise diminuíram sensivelmente”, diz o economista John Williamson, criador da expressão “Consenso de Washington” e pesquisador do Instituto Peterson de Economia Internacional, um dos mais importantes centros de estudos dos Estados Unidos. “O problema histórico do Brasil de conseguir dólares para o balanço de pagamentos foi eliminado”, diz Mendonça de Barros.

Em aceleração

O investimento produtivo(1), após um período de recuo, voltou a crescer acima da evolução do PIB (em %)
  Aumento da taxa de investimento Crescimento do produto interno bruto
2002 -5,2 2,7
2003 -4,6 1,1
2004 9,1 5,7
2005 3,6 2,9
2006 8,7 3,7
(1) Compreende investimentos em máquinas, equipamentos e construção civil
Fonte: IBGE

Esse cenário estimula os prognósticos de que o Brasil esteja próximo de receber o grau de investimento, uma espécie de aval sobre a capacidade de pagamento das dívidas, conferido pelas agências internacionais de classificação de risco. Por ora, o país está dois degraus abaixo desse nível — no qual já se encontram México e Rússia –, que poderá atrair mais capital. Esse selo abriria para o Brasil, por exemplo, os bem recheados cofres dos grandes fundos de pensão, impedidos de aplicar dinheiro em países considerados inseguros. Estima-se que, com o grau de investimento, o país passe a disputar um montante de recursos 17 vezes maior no mercado internacional. Uma evidência de que a promoção pode estar próxima é a queda vertiginosa do risco Brasil, que pela primeira vez chegou a ficar abaixo da média do risco do bloco dos emergentes. No Brasil privado, 13 empresas, entre elas a Vale do Rio Doce, a Ambev, a Gerdau e a Aracruz, já obtiveram grau de investimento. “São companhias que fizeram ajustes antes do país e foram reconhecidas por isso”, diz Luís Afonso Fernandes Lima, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais (Sobeet). A mais clara das vantagens é desfrutar de um custo de capital menor. A Ambev conseguiu o conceito em dezembro de 2004, pela agência Standard & Poor’s, e, pouco mais de um ano depois, recebeu a mesma distinção da Fitch. Em agosto de 2006, para a aquisição do controle da argentina Quilmes, lançou 1,2 bilhão de dólares em debêntures e pagou juros de 1,75 a 2,5 pontos percentuais acima da taxa básica de juro da economia. “Foi uma das taxas mais baixas obtidas por uma empresa brasileira naquela época”, diz Fernando Tennenbaum, gerente de relações com investidores da Ambev.

Encurtando a diferença

O Brasil ainda cresce menos que o resto do mundo, mas a diferença nas taxas de expansão do PIB está diminuindo (em %)
  Brasil Mundo Emergentes
2003 1,1 2,8 5,7
2004 5,7 3,8 7
2005 2,9 3,3 6,6
2006 3,7 3,6 7,1
2007(1) 4,4 4,9 6,4
Fontes: HSBC e Fundo Monetário Internacional
(1) Estimativa

No embalo desse clima positivo, a Bovespa finalmente tem condições de seguir os passos de bolsas mais desenvolvidas, como as de Nova York e de Londres, para desempenhar seu papel: capitalizar a economia. “A bolsa está começando a cumprir sua missão de financiar as empresas”, diz Raymundo Magliano Filho, presidente da Bovespa. É uma realidade totalmente nova para as empresas brasileiras que penam para conseguir financiamentos bancários. Veja o exemplo da Cosan, a maior produtora de açúcar e álcool do país. Há três anos, a empresa já tinha expressiva participação no setor, mas sua dívida era de curto prazo e faltavam-lhe recursos para crescer. Na tentativa de equilibrar o caixa, a Cosan tentou conseguir 5 milhões de dólares com os bancos, dando como garantia contratos futuros de exportações. “Por incrível que possa parecer, nenhum banco se dispôs a liberar o dinheiro porque havia muita restrição a nosso setor na época”, diz Paulo Diniz, diretor financeiro da Cosan. “Decidimos então apresentar a empresa aos investidores e passar o chapéu para ver o que acontecia.” De olho no potencial de crescimento das exportações de açúcar e de etanol, o combustível renovável, os investidores, principalmente estrangeiros, enxergaram na Cosan uma boa oportunidade. O resultado é que, desde 2004, a empresa já captou mais de 1,5 bilhão de dólares — 300 vezes o valor que os bancos lhe recusaram — em cinco operações na bolsa, entre elas a abertura de capital, em dezembro de 2005.

 

A maior parte do dinheiro arrecadado na bolsa entra na economia, alimentando o motor do desenvolvimento. Para entender como essa dinâmica funciona, basta olhar empresas como a construtora Cyrela e a Positivo Informática, fabricante de computadores. Em setembro de 2005, a Cyrela conseguiu 500 milhões de reais ao ser a primeira do setor imobiliário a abrir o capital. Em julho do ano passado, em uma nova emissão de ações, arregimentou outros 700 milhões. O dinheiro da bolsa turbinou os negócios. Concentrada em São Paulo e no Rio de Janeiro, a empresa planejou utilizar os recursos para ingressar em três novas cidades até 2010. Nem dois anos se passaram e ela já atua em 12 cidades de quatro regiões. Só não está presente no norte do país. Antes da abertura de capital, lançava em média um prédio por mês. Agora, anuncia de dois a três empreendimentos mensais. Quase dobrou o número de funcionários na área administrativa, de 220 para 400, e praticamente triplicou o contingente de operários nos canteiros de obras, de 1 500 para cerca de 4 000. No caso da paranaense Positivo Informática, o IPO realizado em dezembro resultou no ingresso de 600 milhões de reais. “Queremos nos preparar para um mercado que continua em franca expansão”, diz Hélio Rottenberg, sócio e presidente da Positivo. Do valor captado, 66 milhões de reais serão usados neste ano para a expansão da fábrica, instalada em Curitiba, e na melhoria dos processos internos. O objetivo da empresa é replicar sua bem-sucedida expansão dos últimos anos, mas em ritmo mais acelerado. Em 2006, a Positivo vendeu 835 000 computadores, 38 vezes mais que o volume comercializado em 2003. “O dinheiro captado na bolsa não desaparece quando entra na empresa”, diz o economista Roberto Teixeira da Costa, ex-presidente da Comissão de Valores Mobiliários. “Ele retorna à economia na forma de investimentos e empregos.”

O Brasil visto de fora
A economia brasileira subiu um patamar, mas não pode se acomodar — essa é a mensagem de economistas de primeiro time ouvidos por EXAME

Jim O’Neill

Britânico, chefe do departamento de pesquisas econômicas do banco Goldman Sachs e criador da sigla Bric, que designa potências emergentes — Brasil, Rússia, Índia e China
“Continuo um otimista em relação ao Brasil. O país está apenas vivendo o começo de uma fase muito positiva, em que vai aproveitar os benefícios das expectativas mais baixas de inflação. Isso pode ser transformador para o Brasil,deixando para trás o conturbado período vivido entre 1975 e 2000.Agora as taxas de juro podem baixar de forma mais aguda, a poupança e os investimentos podem subir e,como resultado,as taxas de crescimento econômico serão mais altas. É natural que os investidores sejam cautelosos em relação ao Brasil, dadas as más experiências dos anos 80 e 90. Mas é preciso lembrar que os dois itens mais importantes para o crescimento a longo prazo são o tamanho da população economicamente ativa e a produtividade. O Brasil se destaca em pelo menos um deles: entre os Bric,o tamanho relativo da força de trabalho só perde para o da Índia nas próximas décadas.”
Simon Johnson
Britânico, economista-chefe do Fundo Monetário Internacional
“O Brasil teve muito sucesso nos últimos anos. O país se desvencilhou do passado de inflação crônica e de um histórico de uma crise atrás da outra. Conquistar essa nova posição não foi uma tarefa fácil.Amelhoria na política fiscal foi muito importante nesse processo. O sucesso, no entanto, não deveria diminuir o ritmo das reformas. Todos os países — não apenas o Brasil — deveriam aproveitar as fases boas para acelerar as reformas. Um país como o Brasil deve continuar progredindo na questão fiscal, por exemplo, até porque o futuro é incerto. No curto prazo, não acredito em queda acentuada na demanda por produtos brasileiros, pois estou otimista em relação à economia global. Num prazo mais longo, porém, é preciso muita cautela.Olhando para os próximos cinco anos,o protecionismo aparece como uma das maiores ameaças à economia global.O comércio é a principal causa da atual prosperidade.”
Edmund S. Phelps
Americano, ganhador do prêmio Nobel de economia de 2006 e professor da Universidade Columbia
“Quando reformas como as que o Brasil fez nos anos 90 são introduzidas, alguns resultados são sentidos imediatamente e outros vêm à tona apenas mais tarde, com o aparecimento de boas oportunidades. É possível que o impulso à globalização, a partir da metade dos anos 90, tenha contribuído para aumentar os investimentos na economia brasileira. O que fazer para acelerar ainda mais a taxa de crescimento? Reforma,reforma, reforma! Menos regulações que defendam interesses escusos e mais regulações positivas que protejam novos empreendedores,investidores ousados e consumidores — eis o caminho. O governo deve garantir que seja simples começar um novo negócio, por exemplo.O setor público gigante é um luxo que países ricos como a Suécia e a Alemanha escolheram ter. É um erro em que tais países, por serem ricos, até podem se permitir incorrer. O Brasil não pode.”
Kenneth Rogoff
Americano, professor de economia da Universidade Harvard e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional
“As empresas brasileiras estão dando claros sinais de grande dinamismo, apesar de o país ainda contar com um marco regulatório fraco. Não são apenas as grandes companhias que estão se destacando — o dinamismo pode ser sentido em todos os níveis. O agronegócio está indo particularmente bem, mesmo com o impasse das negociações comerciais em âmbito global. As empresas exportadoras do Brasil estão colocando o ‘B’de volta na sigla Bric. Estamos, com certeza, vendo um novo capítulo na história econômica do país, mas ainda precisamos torcer para que seja um capítulo longo.As reformas pararam nos últimos anos, deixando muitos dos graves problemas ainda por resolver. O tamanho do governo é absurdo e a carga tributária é talvez a maior do mundo em desenvolvimento. A qualidade da educação básica continua pobre e há pouco esforço para premiar a qualidade no ensino.”

A bolsa tem servido como passaporte também para a internacionalização das empresas brasileiras. Ora funciona como fonte de recursos, ora atua como um avalista, pois é na cotação das ações que se reflete o bom andamento da gestão e dos resultados das companhias listadas, tornando-as atraentes ou descartáveis aos olhos dos investidores. “Quando se observa a trajetória das empresas brasileiras que se globalizaram, nota-se que abrir o capital foi uma etapa importante”, diz Fernando Machado, do Boston Consulting Group, responsável por um estudo sobre globalização de empresas emergentes. “Estar na bolsa significa ter acesso a capital, mais visibilidade e segurança aos olhos do mundo porque a empresa aberta precisa ser transparente em suas relações com o mercado.” A Perdigão é o exemplo mais recente desses benefícios. A empresa prepara uma expansão no mercado internacional jamais vista em sua história — e a guinada será feita com a ajuda do mercado de capitais. Até o final deste ano, a Perdigão pretende adquirir uma empresa no exterior e construir fábricas na Europa e na Ásia para ficar mais próxima dos mercados consumidores. Embora já tenha a marca reconhecida lá fora, hoje atua apenas por meio de escritórios comerciais em algumas regiões. Para crescer, a Perdigão captou 800 milhões de reais em dezembro de 2006, com a emissão de ações na Bovespa e na Bolsa de Valores de Nova York. “Com os recursos captados, aumentamos a velocidade de investimento”, diz o executivo paulista Nildemar Secches, presidente da Perdigão. “A empresa vai dobrar de tamanho até 2011.”

Nenhuma dessas mudanças teria sido possível sem a faxina macroeconômica ocorrida na última década. E nada nesse processo foi mais importante do que a estabilização monetária iniciada com o Real há 12 anos. Hoje, nenhuma mazela econômica afugenta mais o capital do que a inflação — um monstro que países como Brasil e Índia parecem ter vencido. “A sinalização de que a inflação vai continuar baixa e estável nos próximos anos repercute nas bolsas”, diz Bernard Appy, secretário executivo do Ministério da Fazenda. “A maior segurança leva não só os investidores a estar mais dispostos a aplicar em bolsa mas também as próprias empresas a buscar se financiar pela emissão de ações, completando um ciclo positivo.” Preços domados levam à redução dos juros, outro estímulo importante para os investidores. Quanto mais cai a rentabilidade das aplicações em renda fixa mais aumenta a procura de novos ativos para investimento.

Há possibilidade de que todo esse movimento seja a formação de uma bolha? Não, segundo a maioria dos especialistas. O que pode ocorrer são oscilações. “É um movimento sustentável, mas é preciso estar preparado porque a bolsa anda em ziguezagues”, diz Keyler Carvalho Rocha, ex-diretor da área de mercado de capitais do Banco Central e professor da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo. No horizonte mais amplo, excetuando a hipótese — hoje considerada pouco provável — de alguma catástrofe no ambiente internacional, as expectativas para a bolsa e para a economia como um todos são positivas. Ainda é cedo, claro, para decretar o início de uma “era chinesa” no Brasil. Afinal, por mais que o lado moderno da economia melhore, não dá para ignorar o peso de um setor público que responde por quase 40% do PIB nacional. Dá para imaginar o que aconteceria com o Brasil se o governo se contagiasse com um pouco do dinamismo do setor privado e também começasse a fazer sua parte.

A bolsa em 50 mil pontos

 | 19.04.2007

Uma economia brasileira mais forte e mais previsível — eis por que a bolsa atrai um volume crescente de capital externo e não pára de bater recordes

 Ao longo das últimas semanas, o mercado financeiro brasileiro foi a mais reluzente vitrine do otimismo que tomou conta da economia do país. Embalada por momentos de euforia, a Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) quebrou repetidos recordes e virou o principal foco de atenção de investidores espalhados pelo mundo. Dando seqüência a uma escalada que já dura quatro anos, as ações de empresas brasileiras galgaram mais um degrau e fizeram o Indice Bovespa se aproximar do patamar histórico de 50 000 pontos (no dia do fechamento desta edição, ele bateu em 48 755). O movimento é o último ato de uma ascensão impressionante nos negócios da bolsa paulista. Desde 2004, 60 empresas abriram o capital, levantando quase 34 bilhões de reais, e outras dezenas estão na fila para inaugurar seus negócios no mercado acionário. O valor de mercado das companhias de capital aberto no Brasil atingiu o nível recorde de 740 bilhões de dólares, o equivalente a 74% do produto interno bruto — no ano 2000 essa proporção era de apenas 38%. A entrada de capital internacional, por sua vez, é uma onda em franca expansão. Apenas na Bovespa, a movimentação dos investidores estrangeiros nos últimos quatro anos deixou saldo positivo de 18 bilhões de reais. “Há três anos, ninguém queria ouvir falar em investir na América Latina”, diz Andrew Reicher, sócio da Actis, empresa britânica de private equity e primeira estrangeira a entrar no mercado indiano, no início dos anos 90. “Agora já há quem aposte que o Brasil poderá, em algum momento, repetir a trajetória da China depois de Deng Xiaoping e da Índia após a deflagração das reformas da década de 90.”

O vetor ascendente da bolsa

Evolução do Índice Bovespa, em número de pontos(1)
1994 4 354
1999 17 091
2002 11 268
2004 26 196
2007(2) 48 755
(1) Cotação em 31/12 de cada ano
(2) Em 17/4 Fonte: Economática

Pelo menos por ora, tal comparação parece absurda. O desempenho da economia brasileira continua a anos-luz do fabuloso vigor demonstrado por chineses e indianos. Mas a opinião parece refletir uma mudança qualitativa captada pelos analistas econômicos, daqui e de fora, quanto ao momento atual do país. Nas últimas semanas, a reportagem de EXAME ouviu alguns dos mais importantes economistas da atualidade para decifrar o que, afinal, está por trás dos excelentes números da bolsa brasileira. A explicação extrapola os limites estritos do mercado financeiro e tem raiz na economia real do país. A opinião — unânime — é que, aos poucos, o Brasil começa a deixar para trás o marasmo demonstrado até recentemente, quando virou uma espécie de lanterninha na corrida pelo crescimento, e começa, pelo menos, a acompanhar o ritmo da economia mundial. “O país recolocou o ‘B’ à sigla Bric”, diz o economista Kenneth Rogoff, professor da Universidade Harvard e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional, em referência ao grupo dos principais países emergentes (Brasil, Rússia, Índia e China). O pífio crescimento brasileiro nos últimos anos já levantava suspeita de que o país deveria ser excluído desse pelotão. “Entramos num círculo virtuoso”, afirma Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-ministro das Comunicações e economista-chefe da Quest Investimentos. “A economia está mais vigorosa, e isso está aumentando o dinamismo do setor privado.”

A velha e a nova bolsa
Veja a evolução da Bovespa após a implantação do Plano Real
O mercado cresceu…
O valor total das empresas listadas aumentou 5 vezes O número médio de negócios por dia é 14 vezes mais
1995 150 1995 8 700
2007(2) 740 2007(2) 122 000
…e deixou de ser chapa-branca
Entre as empresas mais negociadas, hoje apenas uma é estatal(1)
(E)Estatais (P)Privadas
1995 2007(3)
1 Telebrás (E) 1 Petrobras (E)
2 Eletrobrás (E) 2 Vale do Rio Doce (P)
3 Petrobras (E) 3 Bradesco (P)
4 Vale do Rio Doce (E) 4 Usiminas (P)
5 Usiminas (E) 5 CSN (P)
(1) As cinco ações mais negociadas independentemente de ser preferenciais ou ordinárias
(2) Em abril
(3) Em março Fontes: Bovespa, Economática e Rio Bravo
Bons motivos para o capital vir
O Brasil reúne hoje uma série de condições que atraem investidores estrangeiros

A proporção entre a dívida externa e o total das exportações em 2006 ficou em 1,25 — o menor índice em 30 anos

O atual volume de reservas internacionais do país, de 113 bilhões de dólares, é o maior da história
O saldo positivo do balanço de pagamentos bateu recorde no ano passado: 30 bilhões de dólares
O superávit da balança comercial, de 46 bilhões de dólares, também representou seu pico histórico
O risco-país, ao cair para 156 pontos em 9 de abril, pela primeira vez ficou abaixo da média dos países emergentes
Fonte: RC Consultores

Reside aí — no dinamismo do setor privado — a chave para entender o que se passa hoje com o Brasil. São conhecidas as mazelas que há décadas vêm impedindo o desenvolvimento do país, uma extensa lista que inclui um Estado hiperatrofiado que sufoca as empresas, uma burocracia que aniquila o empreendedorismo, uma infra-estrutura de Terceiro Mundo, uma Justiça que não garante um mínimo de regras aos negócios e esforços insuficientes na área de educação. As esperadas reformas, hoje, parecem escanteadas pelo governo. Olhando por aí o que se enxerga é uma fabulosa conspiração para que tudo — inclusive a economia — dê errado. Em algum momento, essa dívida será cobrada. É o que vem acontecendo, por exemplo, com a redução do ritmo de expansão das exportações brasileiras. Em 2004, elas cresceram 32%. No ano passado, o aumento das vendas internacionais foi de 16%. Em 2007, deve ficar em apenas 8%. Olhando para a vida real, porém, o que se vê é uma série de setores que crescem apesar da inércia governamental. O mercado imobiliário está aquecido como há muito tempo não se via. O volume de financiamento para a compra de imóveis dobrou em 2006. Num mundo acuado pelos vaticínios de catástrofes ambientais, o Brasil surge como a maior potência da energia limpa. Cerca de 15 bilhões de dólares — boa parte disso dinheiro internacional — serão investidos na construção de mais de 70 usinas de álcool. Neste ano, a indústria automobilística brasileira deve produzir 2,8 milhões de unidades — uma marca inédita. Grande parte do volume será vendida no mercado interno, sobretudo à base de crédito. Após mergulhar na crise, o agronegócio recuperou seu fôlego, embalado pelo crescimento da demanda mundial por alimentos. Quando tudo poderia dar errado, por que tantas coisas vão bem? Nas palavras de Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e sócio da Rio Bravo Investimentos, é como se existissem hoje dois Brasis. “De um lado, há o Brasil público, representado pelo governo, que está parado e há mais de 20 anos não tem caixa para fazer investimentos”, diz ele. Por outro lado, há o Brasil das empresas, que investe, cresce e se globaliza. Essa face é representada por setores como o siderúrgico, o de telefonia e o bancário, que sofreram profundas transformações após a abertura de mercado e as privatizações nos anos 90. “Esse Brasil cresce a taxas chinesas, disputa espaço com multinacionais e movimenta os negócios no mercado de capitais”, diz Franco.

O mercado de capitais surge como um elemento central nesse novo momento do país — pelo menos daquele país que avança. Durante décadas, a única opção para empresários que buscavam recursos de longo prazo para investir era bater às portas do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e torcer para ser agraciado pelos burocratas. O crescimento vertiginoso das captações das empresas na bolsa mudou essa lógica. Desde 2005, ela se transformou na principal fonte de recursos para investimentos. No ano passado, as empresas captaram no mercado cerca de 110 bilhões de reais em emissões de ações, debêntures e outros instrumentos financeiros. O montante representou mais que o dobro dos 52 bilhões liberados pelos BNDES em empréstimos. Com isso, diversos setores da economia estão sendo fartamente irrigados com capital para expansão de negócios, geração de empregos e disseminação de práticas modernas de gestão — e as companhias brasileiras ganham musculatura, vendem mais no exterior e, pela primeira vez, fazem o país enxergar a globalização como uma fabulosa oportunidade.

O mundo vive hoje uma das fases mais pujantes do pós-guerra — este é o sexto ano consecutivo de crescimento firme. Segundo as previsões, a economia global deve crescer 5% neste e no próximo ano, com Estados Unidos e China como principais motores. É uma situação positiva não apenas quantitativa mas também qualitativamente, uma vez que a existência de dois pólos de prosperidade confere mais estabilidade aos negócios. Hoje, a descomunal economia chinesa já funciona como contraponto a um eventual enfraquecimento dos Estados Unidos. E a China, com suas taxas anuais de crescimento de dois dígitos, é um sorvedouro de matérias-primas. Nesse cenário, poucos países são tão beneficiados como o Brasil. O saldo comercial do país, atualmente na faixa de 40 bilhões de dólares anuais, era de apenas 3 bilhões há apenas seis anos. As reservas acumuladas pelo Banco Central, já superiores a 110 bilhões de dólares, com perspectiva de subir até 150 bilhões no final do ano, são uma garantia historicamente inédita, que faz sensível diferença aos olhos dos investidores estrangeiros. “Os riscos de uma nova crise diminuíram sensivelmente”, diz o economista John Williamson, criador da expressão “Consenso de Washington” e pesquisador do Instituto Peterson de Economia Internacional, um dos mais importantes centros de estudos dos Estados Unidos. “O problema histórico do Brasil de conseguir dólares para o balanço de pagamentos foi eliminado”, diz Mendonça de Barros.

Em aceleração

O investimento produtivo(1), após um período de recuo, voltou a crescer acima da evolução do PIB (em %)
  Aumento da taxa de investimento Crescimento do produto interno bruto
2002 -5,2 2,7
2003 -4,6 1,1
2004 9,1 5,7
2005 3,6 2,9
2006 8,7 3,7
(1) Compreende investimentos em máquinas, equipamentos e construção civil
Fonte: IBGE

Esse cenário estimula os prognósticos de que o Brasil esteja próximo de receber o grau de investimento, uma espécie de aval sobre a capacidade de pagamento das dívidas, conferido pelas agências internacionais de classificação de risco. Por ora, o país está dois degraus abaixo desse nível — no qual já se encontram México e Rússia –, que poderá atrair mais capital. Esse selo abriria para o Brasil, por exemplo, os bem recheados cofres dos grandes fundos de pensão, impedidos de aplicar dinheiro em países considerados inseguros. Estima-se que, com o grau de investimento, o país passe a disputar um montante de recursos 17 vezes maior no mercado internacional. Uma evidência de que a promoção pode estar próxima é a queda vertiginosa do risco Brasil, que pela primeira vez chegou a ficar abaixo da média do risco do bloco dos emergentes. No Brasil privado, 13 empresas, entre elas a Vale do Rio Doce, a Ambev, a Gerdau e a Aracruz, já obtiveram grau de investimento. “São companhias que fizeram ajustes antes do país e foram reconhecidas por isso”, diz Luís Afonso Fernandes Lima, presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais (Sobeet). A mais clara das vantagens é desfrutar de um custo de capital menor. A Ambev conseguiu o conceito em dezembro de 2004, pela agência Standard & Poor’s, e, pouco mais de um ano depois, recebeu a mesma distinção da Fitch. Em agosto de 2006, para a aquisição do controle da argentina Quilmes, lançou 1,2 bilhão de dólares em debêntures e pagou juros de 1,75 a 2,5 pontos percentuais acima da taxa básica de juro da economia. “Foi uma das taxas mais baixas obtidas por uma empresa brasileira naquela época”, diz Fernando Tennenbaum, gerente de relações com investidores da Ambev.

Encurtando a diferença

O Brasil ainda cresce menos que o resto do mundo, mas a diferença nas taxas de expansão do PIB está diminuindo (em %)
  Brasil Mundo Emergentes
2003 1,1 2,8 5,7
2004 5,7 3,8 7
2005 2,9 3,3 6,6
2006 3,7 3,6 7,1
2007(1) 4,4 4,9 6,4
Fontes: HSBC e Fundo Monetário Internacional
(1) Estimativa

No embalo desse clima positivo, a Bovespa finalmente tem condições de seguir os passos de bolsas mais desenvolvidas, como as de Nova York e de Londres, para desempenhar seu papel: capitalizar a economia. “A bolsa está começando a cumprir sua missão de financiar as empresas”, diz Raymundo Magliano Filho, presidente da Bovespa. É uma realidade totalmente nova para as empresas brasileiras que penam para conseguir financiamentos bancários. Veja o exemplo da Cosan, a maior produtora de açúcar e álcool do país. Há três anos, a empresa já tinha expressiva participação no setor, mas sua dívida era de curto prazo e faltavam-lhe recursos para crescer. Na tentativa de equilibrar o caixa, a Cosan tentou conseguir 5 milhões de dólares com os bancos, dando como garantia contratos futuros de exportações. “Por incrível que possa parecer, nenhum banco se dispôs a liberar o dinheiro porque havia muita restrição a nosso setor na época”, diz Paulo Diniz, diretor financeiro da Cosan. “Decidimos então apresentar a empresa aos investidores e passar o chapéu para ver o que acontecia.” De olho no potencial de crescimento das exportações de açúcar e de etanol, o combustível renovável, os investidores, principalmente estrangeiros, enxergaram na Cosan uma boa oportunidade. O resultado é que, desde 2004, a empresa já captou mais de 1,5 bilhão de dólares — 300 vezes o valor que os bancos lhe recusaram — em cinco operações na bolsa, entre elas a abertura de capital, em dezembro de 2005.

 

A maior parte do dinheiro arrecadado na bolsa entra na economia, alimentando o motor do desenvolvimento. Para entender como essa dinâmica funciona, basta olhar empresas como a construtora Cyrela e a Positivo Informática, fabricante de computadores. Em setembro de 2005, a Cyrela conseguiu 500 milhões de reais ao ser a primeira do setor imobiliário a abrir o capital. Em julho do ano passado, em uma nova emissão de ações, arregimentou outros 700 milhões. O dinheiro da bolsa turbinou os negócios. Concentrada em São Paulo e no Rio de Janeiro, a empresa planejou utilizar os recursos para ingressar em três novas cidades até 2010. Nem dois anos se passaram e ela já atua em 12 cidades de quatro regiões. Só não está presente no norte do país. Antes da abertura de capital, lançava em média um prédio por mês. Agora, anuncia de dois a três empreendimentos mensais. Quase dobrou o número de funcionários na área administrativa, de 220 para 400, e praticamente triplicou o contingente de operários nos canteiros de obras, de 1 500 para cerca de 4 000. No caso da paranaense Positivo Informática, o IPO realizado em dezembro resultou no ingresso de 600 milhões de reais. “Queremos nos preparar para um mercado que continua em franca expansão”, diz Hélio Rottenberg, sócio e presidente da Positivo. Do valor captado, 66 milhões de reais serão usados neste ano para a expansão da fábrica, instalada em Curitiba, e na melhoria dos processos internos. O objetivo da empresa é replicar sua bem-sucedida expansão dos últimos anos, mas em ritmo mais acelerado. Em 2006, a Positivo vendeu 835 000 computadores, 38 vezes mais que o volume comercializado em 2003. “O dinheiro captado na bolsa não desaparece quando entra na empresa”, diz o economista Roberto Teixeira da Costa, ex-presidente da Comissão de Valores Mobiliários. “Ele retorna à economia na forma de investimentos e empregos.”

O Brasil visto de fora
A economia brasileira subiu um patamar, mas não pode se acomodar — essa é a mensagem de economistas de primeiro time ouvidos por EXAME

Jim O’Neill

Britânico, chefe do departamento de pesquisas econômicas do banco Goldman Sachs e criador da sigla Bric, que designa potências emergentes — Brasil, Rússia, Índia e China
“Continuo um otimista em relação ao Brasil. O país está apenas vivendo o começo de uma fase muito positiva, em que vai aproveitar os benefícios das expectativas mais baixas de inflação. Isso pode ser transformador para o Brasil,deixando para trás o conturbado período vivido entre 1975 e 2000.Agora as taxas de juro podem baixar de forma mais aguda, a poupança e os investimentos podem subir e,como resultado,as taxas de crescimento econômico serão mais altas. É natural que os investidores sejam cautelosos em relação ao Brasil, dadas as más experiências dos anos 80 e 90. Mas é preciso lembrar que os dois itens mais importantes para o crescimento a longo prazo são o tamanho da população economicamente ativa e a produtividade. O Brasil se destaca em pelo menos um deles: entre os Bric,o tamanho relativo da força de trabalho só perde para o da Índia nas próximas décadas.”
Simon Johnson
Britânico, economista-chefe do Fundo Monetário Internacional
“O Brasil teve muito sucesso nos últimos anos. O país se desvencilhou do passado de inflação crônica e de um histórico de uma crise atrás da outra. Conquistar essa nova posição não foi uma tarefa fácil.Amelhoria na política fiscal foi muito importante nesse processo. O sucesso, no entanto, não deveria diminuir o ritmo das reformas. Todos os países — não apenas o Brasil — deveriam aproveitar as fases boas para acelerar as reformas. Um país como o Brasil deve continuar progredindo na questão fiscal, por exemplo, até porque o futuro é incerto. No curto prazo, não acredito em queda acentuada na demanda por produtos brasileiros, pois estou otimista em relação à economia global. Num prazo mais longo, porém, é preciso muita cautela.Olhando para os próximos cinco anos,o protecionismo aparece como uma das maiores ameaças à economia global.O comércio é a principal causa da atual prosperidade.”
Edmund S. Phelps
Americano, ganhador do prêmio Nobel de economia de 2006 e professor da Universidade Columbia
“Quando reformas como as que o Brasil fez nos anos 90 são introduzidas, alguns resultados são sentidos imediatamente e outros vêm à tona apenas mais tarde, com o aparecimento de boas oportunidades. É possível que o impulso à globalização, a partir da metade dos anos 90, tenha contribuído para aumentar os investimentos na economia brasileira. O que fazer para acelerar ainda mais a taxa de crescimento? Reforma,reforma, reforma! Menos regulações que defendam interesses escusos e mais regulações positivas que protejam novos empreendedores,investidores ousados e consumidores — eis o caminho. O governo deve garantir que seja simples começar um novo negócio, por exemplo.O setor público gigante é um luxo que países ricos como a Suécia e a Alemanha escolheram ter. É um erro em que tais países, por serem ricos, até podem se permitir incorrer. O Brasil não pode.”
Kenneth Rogoff
Americano, professor de economia da Universidade Harvard e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional
“As empresas brasileiras estão dando claros sinais de grande dinamismo, apesar de o país ainda contar com um marco regulatório fraco. Não são apenas as grandes companhias que estão se destacando — o dinamismo pode ser sentido em todos os níveis. O agronegócio está indo particularmente bem, mesmo com o impasse das negociações comerciais em âmbito global. As empresas exportadoras do Brasil estão colocando o ‘B’de volta na sigla Bric. Estamos, com certeza, vendo um novo capítulo na história econômica do país, mas ainda precisamos torcer para que seja um capítulo longo.As reformas pararam nos últimos anos, deixando muitos dos graves problemas ainda por resolver. O tamanho do governo é absurdo e a carga tributária é talvez a maior do mundo em desenvolvimento. A qualidade da educação básica continua pobre e há pouco esforço para premiar a qualidade no ensino.”

A bolsa tem servido como passaporte também para a internacionalização das empresas brasileiras. Ora funciona como fonte de recursos, ora atua como um avalista, pois é na cotação das ações que se reflete o bom andamento da gestão e dos resultados das companhias listadas, tornando-as atraentes ou descartáveis aos olhos dos investidores. “Quando se observa a trajetória das empresas brasileiras que se globalizaram, nota-se que abrir o capital foi uma etapa importante”, diz Fernando Machado, do Boston Consulting Group, responsável por um estudo sobre globalização de empresas emergentes. “Estar na bolsa significa ter acesso a capital, mais visibilidade e segurança aos olhos do mundo porque a empresa aberta precisa ser transparente em suas relações com o mercado.” A Perdigão é o exemplo mais recente desses benefícios. A empresa prepara uma expansão no mercado internacional jamais vista em sua história — e a guinada será feita com a ajuda do mercado de capitais. Até o final deste ano, a Perdigão pretende adquirir uma empresa no exterior e construir fábricas na Europa e na Ásia para ficar mais próxima dos mercados consumidores. Embora já tenha a marca reconhecida lá fora, hoje atua apenas por meio de escritórios comerciais em algumas regiões. Para crescer, a Perdigão captou 800 milhões de reais em dezembro de 2006, com a emissão de ações na Bovespa e na Bolsa de Valores de Nova York. “Com os recursos captados, aumentamos a velocidade de investimento”, diz o executivo paulista Nildemar Secches, presidente da Perdigão. “A empresa vai dobrar de tamanho até 2011.”

Nenhuma dessas mudanças teria sido possível sem a faxina macroeconômica ocorrida na última década. E nada nesse processo foi mais importante do que a estabilização monetária iniciada com o Real há 12 anos. Hoje, nenhuma mazela econômica afugenta mais o capital do que a inflação — um monstro que países como Brasil e Índia parecem ter vencido. “A sinalização de que a inflação vai continuar baixa e estável nos próximos anos repercute nas bolsas”, diz Bernard Appy, secretário executivo do Ministério da Fazenda. “A maior segurança leva não só os investidores a estar mais dispostos a aplicar em bolsa mas também as próprias empresas a buscar se financiar pela emissão de ações, completando um ciclo positivo.” Preços domados levam à redução dos juros, outro estímulo importante para os investidores. Quanto mais cai a rentabilidade das aplicações em renda fixa mais aumenta a procura de novos ativos para investimento.

Há possibilidade de que todo esse movimento seja a formação de uma bolha? Não, segundo a maioria dos especialistas. O que pode ocorrer são oscilações. “É um movimento sustentável, mas é preciso estar preparado porque a bolsa anda em ziguezagues”, diz Keyler Carvalho Rocha, ex-diretor da área de mercado de capitais do Banco Central e professor da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo. No horizonte mais amplo, excetuando a hipótese — hoje considerada pouco provável — de alguma catástrofe no ambiente internacional, as expectativas para a bolsa e para a economia como um todos são positivas. Ainda é cedo, claro, para decretar o início de uma “era chinesa” no Brasil. Afinal, por mais que o lado moderno da economia melhore, não dá para ignorar o peso de um setor público que responde por quase 40% do PIB nacional. Dá para imaginar o que aconteceria com o Brasil se o governo se contagiasse com um pouco do dinamismo do setor privado e também começasse a fazer sua parte.

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Monday, March 19, 2007

Um mundo viciado em risco

A atual turbulência nas bolsas mundiais serve como um poderoso alerta: vivemos numa economia exuberante na qual correr risco faz cada vez mais parte do joglexa Salomão

Marinheiros experimentados costumam temer um tipo específico de calmaria que por vezes se observa nos oceanos — é prenúncio de tempestade. Certos deslocamentos nas massas de ar sempre trazem tranqüilidade aos mares imediatamente antes de o tempo fechar. Já há várias semanas um medo semelhante vinha rondando os profissionais mais calejados do mercado financeiro, aqui e lá fora. A suspeita era de uma iminente mudança de clima no mundo das finanças, interrompendo um longo ciclo de boas notícias que já dura vários meses. No último dia 27, o boato de que o governo chinês taxaria os ganhos na bolsa de Xangai deu início a uma onda de medo nos mercados mundo afora, provocando perdas para os investidores que atingiram, no auge da turbulência, quase 2 trilhões de dólares. O movimento ganhou impulso com as declarações do oráculo Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve, o banco central americano, alertando para a possibilidade de recessão nos Estados Unidos, hoje o foco da atenção de economistas e financistas. As bolsas voltaram a subir no dia 6 de março, data do fechamento desta edição, deixando no ar a dúvida quanto à extensão do episódio. A história ensina que correções abruptas nas cotações podem tanto ser rapidamente superadas como ter conseqüências duradouras, e ainda não dá para saber se o evento da última semana será visto no futuro como o início de uma longa crise ou de apenas um ajuste técnico — a maioria das apostas é na segunda opção. Seja como for, os sinais enviados pelas bolsas nos últimos dias já foram devidamente captados pelos homens de mercado. “Vivemos num mundo muito arriscado. É bom nunca nos esquecermos disso”, diz o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, sócio da Quest Investimentos.

A lembrança de que o risco é parte inerente da vida nas economias modernas, talvez num patamar inédito na história, pega o globo num momento de plena euforia — com tudo o que isso tem de bom e de ruim. Os investimentos financeiros dão saltos espetaculares a cada ano e atingem cifras que impressionam e assustam. Em meados dos anos 90, assumir riscos ainda era uma prática restrita a um punhado de operadores em mercados mais desenvolvidos. Naquele momento, o giro diário nas bolsas de valores e de commodities do mundo ficava na casa dos 2,5 trilhões de dólares. Em 2004, quando o espírito do arrojo já alcançara escala global, o movimento diário estava em 4,3 trilhões. Estima-se que passará de 6 trilhões de dólares neste ano. Essa maré de dinheiro tem feito a festa dos investidores. A bolsa chinesa subiu 130% no ano passado. A brasileira, 33%. O investimento externo serve de estímulo à profícua safra de aberturas de capitais no Brasil. As 49 empresas que lançaram ações na bolsa de São Paulo desde 2004 receberam 20 bilhões de reais dos investidores internacionais dispostos a correr riscos por aqui. Em média, 70% das ofertas são arrebatadas por estrangeiros. O problema ocorre quando o fluxo se inverte, como se viu nos últimos dias. Num momento de pânico, a fuga de capitais dos mercados deixa um rastro de destruição. O pequeno investidor é o alvo mais frágil nesse corre-corre. “Vai chegar o momento em que o crescimento global cederá e os ganhos no mercado financeiro deixarão de ser tão altos”, diz Roberto Dumas Damas, professor do Ibmec São Paulo. “Os grandes investidores sabem disso e ao menor sinal de alerta garantem seus lucros e fogem para investimentos mais seguros. Só depois avaliam a extensão do perigo.” Nessa hora, bolsas com alta liquidez, como a brasileira, sofrem mais que a média. “O Brasil é um dos países eleitos pelos investidores internacionais e a bolsa já tinha subido bastante, o que abre espaço para realizações”, diz Luiz Fernando Figueiredo, sócio da gestora de recursos Mauá Investimentos.

 

Paradoxalmente, a disposição em assumir mais risco nos mercados financeiros internacionais aflorou durante um período de extrema tranqüilidade na economia real. Há cinco anos o mundo vive um dos mais longos ciclos de crescimento econômico da história. A inflação permanece sob controle, a produção mundial não pára de crescer e as empresas expandem os lucros ao redor do planeta. As exportações mundiais duplicaram desde 2000 para um volume inédito de 14 trilhões de dólares. À diferença de outros momentos de bonança do passado, geralmente restritos ao clube das nações ricas, os bons ventos agora sopram para muito mais gente. Não apenas vários países desenvolvidos começam a recuperar muito do viço de outros tempos como surgem novas estrelas na constelação econômica internacional — destaque para China e Índia. O Brasil, mesmo sem acompanhar a exuberância de seus pares, soube manter a economia nos trilhos e dar um ambiente seguro aos estrangeiros. Com exceções aqui e acolá — como na Venezuela e na Bolívia –, o cenário é de um mundo com políticas econômicas bem mais responsáveis. No meio financeiro, isso se traduziu em mais clareza para os investidores avaliarem os riscos que querem correr e mais apetite para migrar das aplicações tradicionais, como os títulos do tesouro americano, para opções consideradas mais agressivas e rentáveis — onde quer que elas estejam. “Os ajustes na macroeconomia, especialmente nas áreas monetária e fiscal, reduziram a sensação de risco na maior parte do globo”, disse a EXAME Kenneth Rogoff, professor de políticas públicas da Universidade Harvard e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional. “Nos países desenvolvidos, a estabilidade provocou queda de 25% na percepção de risco; em países emergentes, como o Brasil, a redução chegou a 50%.”

Para os investidores profissionais, essa situação se traduz num dilema. Num mun do com menos distorções na economia real, ganhos elevados nos mercados financeiros demandam aplicações extremamente arriscadas — ou “alavancadas”, para usar o jargão. Até meados da década passada, uma série de países adotava políticas econômicas que caíram em desuso. Uma delas era a prática de câmbio administrado pelos governos. Sempre que os investidores desconfiavam da saúde econômica de um desses países, lançavam-se numa violenta aposta contra as moedas nacionais. Isso foi feito não apenas em países emergentes, como Tailândia, Brasil e Argentina, mas até mesmo na poderosa Inglaterra, onde o investidor húngaro George Soros fez fortuna no início dos anos 90 ao derrubar a libra. “Antes, as crises se traduziam em desvalorização da moeda”, diz o economista Sérgio Werlang, diretor do banco Itaú e ex-diretor do Banco Central. “Era o câmbio o principal indicador de problemas.” Com o virtual desaparecimento dos regimes de câmbio fixo — a China aparece como exceção à regra –, os investidores hoje têm de ganhar dinheiro em outros mercados, de muito mais risco.

Na busca global por lucros mais polpudos, os operadores passaram a montar carteiras gigantescas associando empresas das mais diversas nacionalidades. “Antes tínhamos a figura do investidor individual”, diz Mendonça de Barros. “Hoje os mercados são comandados por grandes fundos, que são blocos de investidores atuando em conjunto.” Tais fundos entraram em peso nos sofisticados mercados de commodities, como a bolsa de Chicago, que dita os preços dos grãos, e a de Londres, onde se cota parte do petróleo. Aportaram quantias cada vez maiores comprando ou vendendo projeções de bens etéreos para a maioria dos mortais, como contratos de energia, índices, taxas de juro e cotações de moedas. Prova de que os investidores buscam mais risco é o crescimento do mercado de derivativos financeiros, como câmbio e juros. O volume de negócios da Chicago Mercantile Exchange, a maior bolsa de futuros financeiros do mundo, quase triplicou nos últimos cinco anos, para inacreditáveis 827 trilhões de dólares.

 

Nesse novo mundo do risco, alguns personagens ganham proeminência. Um deles são os fundos de private equity, que investem em empresas. Com o desenvolvimento do mercado de capitais, receberam poderosas injeções de recursos de investidores institucionais para expandir seu raio de ação. Hoje há 680 fundos do gênero, com mais de 400 bilhões de dólares na carteira. Alguns deles, como o Blackstone, capitaneado por Stephen Schwarzman, equiparam-se a grandes conglomerados e fecham negócios apoteóticos. No ano passado, o Balckstone pagou 36 bilhões de dólares na aquisição da Equity Office Properties Trust, empresa do megainvestidor Samuel Zell, especializada em aplicar em edifícios comerciais.

Outro grupo com importância crescente são os fundos de hedge. Trata-se de um tipo de aplicador extremamente arrojado, que negocia ao mesmo tempo em mercados tão distintos quanto o de moedas, ações, commodities e títulos em posições cruzadas ao redor do mundo. Os hedge representam a elite entre os tomadores de risco e firmaram-se como potências capazes de definir os rumos da economia mundial. Em apenas cinco anos, dobraram de tamanho globalmente. Só nos Estados Unidos, existem mais de 9 000 fundos de hedge, administrando um total de 700 bilhões de dólares. No mundo, o patrimônio chega a 1,3 trilhão de dólares — mais que o PIB brasileiro. No Brasil, os fundos ainda estão num estágio menos avançado, tanto em termos de sofisticação como em poder e influência. Mas a importância dessas carteiras vem crescendo de forma expressiva, com a ajuda da expansão do mercado de capitais e da queda dos juros, que tira a rentabilida de da renda fixa. Segundo os analistas, os hedge são os grandes responsáveis pela volatilidade dos mercados nos momentos de turbulência. Por causa de seu porte e poder de fogo, são temidos por governantes e pequenos investidores — se fizerem uma manobra errada, podem afundar, causando estragos à sua volta. “Os fundos de hedge são importantes porque aumentam o volume de investimentos nos mercados”, diz Rodolfo Spielmann, sócio da consultoria americana Bain & Company. “Mas tomam muitos empréstimos para fazer investimentos arrojados e num momento de crise podem ficar inadimplentes e desencadear uma crise financeira no setor bancário.”

Ajuste técnico ou crise?
As convulsões do mercado financeiro são classificadas como crise quando contagiam de forma marcante a economia real. Confira alguns dos exemplos mais cristalinos dos últimos 100 anos
1929
Onde começou Estados Unidos
Quanto durou 3 anos
Tamanho da perda 90%(1)
Motivos A euforia dos investidores, acompanhada da falta de regulação do mercado, provocou a quebra da bolsa
Situação CRISE
1987
Onde começou Estados Unidos
Quanto durou 2 meses
Tamanho da perda 34%(2)
Motivos As falhas no sistema eletrônico de compra e venda de ações descontrolaram o mercado
Situação AJUSTE TÉCNICO
1997
Onde começou Países Asiáticos
Quanto durou 2 anos
Tamanho da perda 74%(3)
Motivos Os governos de alguns países asiáticos supervalorizaram suas moedas, afugentando os investidores
Situação CRISE
1998
Onde começou
Rússia
Quanto durou 2 anos
Tamanho da perda 93%(4)
Motivos Os títulos públicos emitidos pelo governo russo e colocados no mercado não tinham liquidez, o que provocou a crise
Situação CRISE
2000
Onde começo
u Estados Unidos
Quanto durou 2 anos
Tamanho da perda 38%(5)
Motivos A crise começou com o estouro da bolha da internet e foi agravada pelos atentados terroristas do 11 de Setembro
Situação CRISE
2006
Onde começou
Estados Unidos
Quanto durou 2 meses
Tamanho da perda 28%(6)
Motivos A perspectiva de aumento dos juros gerou temor de que a economia americana pudesse desacelerar
Situação AJUSTE TÉCNICO
(1) Queda do Índice Dow Jones entre outubro de 1929 e julho de 1932
(2) Queda do Índice Dow Jones entre outubro e dezembro de 1987
(3) Queda do Índice Set da bolsa da Tailândia entre dezembro de 1996 e agosto de 1998
(4) Queda do Índice Russian Trading System da bolsa da Rússia entre agosto de 1997 e janeiro de 2000
(5) Queda do Índice Dow Jones entre março de 2000 e outubro de 2002
(6) A Rússia foi um dos países que mais sentiram a crise.A queda do Índice Russian Trading System da bolsa da Rússia entre maio e junho de 2006

Na história da economia, nunca foi fácil diferenciar um simples ajuste de uma crise, ainda que ela fosse iminente. Normalmente, os sinais da derrocada ocorrem em momentos de opulência e são difusos. Para complicar, muitos arautos dos lucros fáceis aparecem para arrefecer os temores. Em 1929, às vésperas da histórica quebradeira na bolsa de Nova York, o mercado vivia uma euforia cega. Charles Michell, presidente do National City Bank, acreditava com todas as forças que o mercado era “um catavento apontando para um vendaval de prosperidade”. Quando as cotações começaram a cair, tranqüilizou os investidores alegando que “não havia fundamentos” para sustentar uma crise. Terminou a vida sem nada. Os erros do passado serviram de lição e são fartamente avaliados pela literatura econômica, mas ainda não surgiu uma metodologia para diagnosticar os humores do mercado. Para o Brasil, resta o consolo de que o país está hoje bem mais preparado para enfrentar problemas na economia. “O risco de uma contaminação é bem menor, pois os países emergentes melhoraram muito nos últimos anos”, diz o economista José Alexandre Scheinkman, da Universidade Princeton. “O Brasil só deve ter problema na hipótese de uma recessão mundial.” Como ninguém sabe dizer se o mundo caminha ou não para uma recessão, a única certeza agora é que o risco fará cada vez mais parte da vida das pessoas. É melhor estar preparado.

 

Um mundo viciado em risco

A atual turbulência nas bolsas mundiais serve como um poderoso alerta: vivemos numa economia exuberante na qual correr risco faz cada vez mais parte do joglexa Salomão

Marinheiros experimentados costumam temer um tipo específico de calmaria que por vezes se observa nos oceanos — é prenúncio de tempestade. Certos deslocamentos nas massas de ar sempre trazem tranqüilidade aos mares imediatamente antes de o tempo fechar. Já há várias semanas um medo semelhante vinha rondando os profissionais mais calejados do mercado financeiro, aqui e lá fora. A suspeita era de uma iminente mudança de clima no mundo das finanças, interrompendo um longo ciclo de boas notícias que já dura vários meses. No último dia 27, o boato de que o governo chinês taxaria os ganhos na bolsa de Xangai deu início a uma onda de medo nos mercados mundo afora, provocando perdas para os investidores que atingiram, no auge da turbulência, quase 2 trilhões de dólares. O movimento ganhou impulso com as declarações do oráculo Alan Greenspan, ex-presidente do Federal Reserve, o banco central americano, alertando para a possibilidade de recessão nos Estados Unidos, hoje o foco da atenção de economistas e financistas. As bolsas voltaram a subir no dia 6 de março, data do fechamento desta edição, deixando no ar a dúvida quanto à extensão do episódio. A história ensina que correções abruptas nas cotações podem tanto ser rapidamente superadas como ter conseqüências duradouras, e ainda não dá para saber se o evento da última semana será visto no futuro como o início de uma longa crise ou de apenas um ajuste técnico — a maioria das apostas é na segunda opção. Seja como for, os sinais enviados pelas bolsas nos últimos dias já foram devidamente captados pelos homens de mercado. “Vivemos num mundo muito arriscado. É bom nunca nos esquecermos disso”, diz o economista Luiz Carlos Mendonça de Barros, sócio da Quest Investimentos.

A lembrança de que o risco é parte inerente da vida nas economias modernas, talvez num patamar inédito na história, pega o globo num momento de plena euforia — com tudo o que isso tem de bom e de ruim. Os investimentos financeiros dão saltos espetaculares a cada ano e atingem cifras que impressionam e assustam. Em meados dos anos 90, assumir riscos ainda era uma prática restrita a um punhado de operadores em mercados mais desenvolvidos. Naquele momento, o giro diário nas bolsas de valores e de commodities do mundo ficava na casa dos 2,5 trilhões de dólares. Em 2004, quando o espírito do arrojo já alcançara escala global, o movimento diário estava em 4,3 trilhões. Estima-se que passará de 6 trilhões de dólares neste ano. Essa maré de dinheiro tem feito a festa dos investidores. A bolsa chinesa subiu 130% no ano passado. A brasileira, 33%. O investimento externo serve de estímulo à profícua safra de aberturas de capitais no Brasil. As 49 empresas que lançaram ações na bolsa de São Paulo desde 2004 receberam 20 bilhões de reais dos investidores internacionais dispostos a correr riscos por aqui. Em média, 70% das ofertas são arrebatadas por estrangeiros. O problema ocorre quando o fluxo se inverte, como se viu nos últimos dias. Num momento de pânico, a fuga de capitais dos mercados deixa um rastro de destruição. O pequeno investidor é o alvo mais frágil nesse corre-corre. “Vai chegar o momento em que o crescimento global cederá e os ganhos no mercado financeiro deixarão de ser tão altos”, diz Roberto Dumas Damas, professor do Ibmec São Paulo. “Os grandes investidores sabem disso e ao menor sinal de alerta garantem seus lucros e fogem para investimentos mais seguros. Só depois avaliam a extensão do perigo.” Nessa hora, bolsas com alta liquidez, como a brasileira, sofrem mais que a média. “O Brasil é um dos países eleitos pelos investidores internacionais e a bolsa já tinha subido bastante, o que abre espaço para realizações”, diz Luiz Fernando Figueiredo, sócio da gestora de recursos Mauá Investimentos.

 

Paradoxalmente, a disposição em assumir mais risco nos mercados financeiros internacionais aflorou durante um período de extrema tranqüilidade na economia real. Há cinco anos o mundo vive um dos mais longos ciclos de crescimento econômico da história. A inflação permanece sob controle, a produção mundial não pára de crescer e as empresas expandem os lucros ao redor do planeta. As exportações mundiais duplicaram desde 2000 para um volume inédito de 14 trilhões de dólares. À diferença de outros momentos de bonança do passado, geralmente restritos ao clube das nações ricas, os bons ventos agora sopram para muito mais gente. Não apenas vários países desenvolvidos começam a recuperar muito do viço de outros tempos como surgem novas estrelas na constelação econômica internacional — destaque para China e Índia. O Brasil, mesmo sem acompanhar a exuberância de seus pares, soube manter a economia nos trilhos e dar um ambiente seguro aos estrangeiros. Com exceções aqui e acolá — como na Venezuela e na Bolívia –, o cenário é de um mundo com políticas econômicas bem mais responsáveis. No meio financeiro, isso se traduziu em mais clareza para os investidores avaliarem os riscos que querem correr e mais apetite para migrar das aplicações tradicionais, como os títulos do tesouro americano, para opções consideradas mais agressivas e rentáveis — onde quer que elas estejam. “Os ajustes na macroeconomia, especialmente nas áreas monetária e fiscal, reduziram a sensação de risco na maior parte do globo”, disse a EXAME Kenneth Rogoff, professor de políticas públicas da Universidade Harvard e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional. “Nos países desenvolvidos, a estabilidade provocou queda de 25% na percepção de risco; em países emergentes, como o Brasil, a redução chegou a 50%.”

Para os investidores profissionais, essa situação se traduz num dilema. Num mun do com menos distorções na economia real, ganhos elevados nos mercados financeiros demandam aplicações extremamente arriscadas — ou “alavancadas”, para usar o jargão. Até meados da década passada, uma série de países adotava políticas econômicas que caíram em desuso. Uma delas era a prática de câmbio administrado pelos governos. Sempre que os investidores desconfiavam da saúde econômica de um desses países, lançavam-se numa violenta aposta contra as moedas nacionais. Isso foi feito não apenas em países emergentes, como Tailândia, Brasil e Argentina, mas até mesmo na poderosa Inglaterra, onde o investidor húngaro George Soros fez fortuna no início dos anos 90 ao derrubar a libra. “Antes, as crises se traduziam em desvalorização da moeda”, diz o economista Sérgio Werlang, diretor do banco Itaú e ex-diretor do Banco Central. “Era o câmbio o principal indicador de problemas.” Com o virtual desaparecimento dos regimes de câmbio fixo — a China aparece como exceção à regra –, os investidores hoje têm de ganhar dinheiro em outros mercados, de muito mais risco.

Na busca global por lucros mais polpudos, os operadores passaram a montar carteiras gigantescas associando empresas das mais diversas nacionalidades. “Antes tínhamos a figura do investidor individual”, diz Mendonça de Barros. “Hoje os mercados são comandados por grandes fundos, que são blocos de investidores atuando em conjunto.” Tais fundos entraram em peso nos sofisticados mercados de commodities, como a bolsa de Chicago, que dita os preços dos grãos, e a de Londres, onde se cota parte do petróleo. Aportaram quantias cada vez maiores comprando ou vendendo projeções de bens etéreos para a maioria dos mortais, como contratos de energia, índices, taxas de juro e cotações de moedas. Prova de que os investidores buscam mais risco é o crescimento do mercado de derivativos financeiros, como câmbio e juros. O volume de negócios da Chicago Mercantile Exchange, a maior bolsa de futuros financeiros do mundo, quase triplicou nos últimos cinco anos, para inacreditáveis 827 trilhões de dólares.

 

Nesse novo mundo do risco, alguns personagens ganham proeminência. Um deles são os fundos de private equity, que investem em empresas. Com o desenvolvimento do mercado de capitais, receberam poderosas injeções de recursos de investidores institucionais para expandir seu raio de ação. Hoje há 680 fundos do gênero, com mais de 400 bilhões de dólares na carteira. Alguns deles, como o Blackstone, capitaneado por Stephen Schwarzman, equiparam-se a grandes conglomerados e fecham negócios apoteóticos. No ano passado, o Balckstone pagou 36 bilhões de dólares na aquisição da Equity Office Properties Trust, empresa do megainvestidor Samuel Zell, especializada em aplicar em edifícios comerciais.

Outro grupo com importância crescente são os fundos de hedge. Trata-se de um tipo de aplicador extremamente arrojado, que negocia ao mesmo tempo em mercados tão distintos quanto o de moedas, ações, commodities e títulos em posições cruzadas ao redor do mundo. Os hedge representam a elite entre os tomadores de risco e firmaram-se como potências capazes de definir os rumos da economia mundial. Em apenas cinco anos, dobraram de tamanho globalmente. Só nos Estados Unidos, existem mais de 9 000 fundos de hedge, administrando um total de 700 bilhões de dólares. No mundo, o patrimônio chega a 1,3 trilhão de dólares — mais que o PIB brasileiro. No Brasil, os fundos ainda estão num estágio menos avançado, tanto em termos de sofisticação como em poder e influência. Mas a importância dessas carteiras vem crescendo de forma expressiva, com a ajuda da expansão do mercado de capitais e da queda dos juros, que tira a rentabilida de da renda fixa. Segundo os analistas, os hedge são os grandes responsáveis pela volatilidade dos mercados nos momentos de turbulência. Por causa de seu porte e poder de fogo, são temidos por governantes e pequenos investidores — se fizerem uma manobra errada, podem afundar, causando estragos à sua volta. “Os fundos de hedge são importantes porque aumentam o volume de investimentos nos mercados”, diz Rodolfo Spielmann, sócio da consultoria americana Bain & Company. “Mas tomam muitos empréstimos para fazer investimentos arrojados e num momento de crise podem ficar inadimplentes e desencadear uma crise financeira no setor bancário.”

Ajuste técnico ou crise?
As convulsões do mercado financeiro são classificadas como crise quando contagiam de forma marcante a economia real. Confira alguns dos exemplos mais cristalinos dos últimos 100 anos
1929
Onde começou Estados Unidos
Quanto durou 3 anos
Tamanho da perda 90%(1)
Motivos A euforia dos investidores, acompanhada da falta de regulação do mercado, provocou a quebra da bolsa
Situação CRISE
1987
Onde começou Estados Unidos
Quanto durou 2 meses
Tamanho da perda 34%(2)
Motivos As falhas no sistema eletrônico de compra e venda de ações descontrolaram o mercado
Situação AJUSTE TÉCNICO
1997
Onde começou Países Asiáticos
Quanto durou 2 anos
Tamanho da perda 74%(3)
Motivos Os governos de alguns países asiáticos supervalorizaram suas moedas, afugentando os investidores
Situação CRISE
1998
Onde começou
Rússia
Quanto durou 2 anos
Tamanho da perda 93%(4)
Motivos Os títulos públicos emitidos pelo governo russo e colocados no mercado não tinham liquidez, o que provocou a crise
Situação CRISE
2000
Onde começo
u Estados Unidos
Quanto durou 2 anos
Tamanho da perda 38%(5)
Motivos A crise começou com o estouro da bolha da internet e foi agravada pelos atentados terroristas do 11 de Setembro
Situação CRISE
2006
Onde começou
Estados Unidos
Quanto durou 2 meses
Tamanho da perda 28%(6)
Motivos A perspectiva de aumento dos juros gerou temor de que a economia americana pudesse desacelerar
Situação AJUSTE TÉCNICO
(1) Queda do Índice Dow Jones entre outubro de 1929 e julho de 1932
(2) Queda do Índice Dow Jones entre outubro e dezembro de 1987
(3) Queda do Índice Set da bolsa da Tailândia entre dezembro de 1996 e agosto de 1998
(4) Queda do Índice Russian Trading System da bolsa da Rússia entre agosto de 1997 e janeiro de 2000
(5) Queda do Índice Dow Jones entre março de 2000 e outubro de 2002
(6) A Rússia foi um dos países que mais sentiram a crise.A queda do Índice Russian Trading System da bolsa da Rússia entre maio e junho de 2006

Na história da economia, nunca foi fácil diferenciar um simples ajuste de uma crise, ainda que ela fosse iminente. Normalmente, os sinais da derrocada ocorrem em momentos de opulência e são difusos. Para complicar, muitos arautos dos lucros fáceis aparecem para arrefecer os temores. Em 1929, às vésperas da histórica quebradeira na bolsa de Nova York, o mercado vivia uma euforia cega. Charles Michell, presidente do National City Bank, acreditava com todas as forças que o mercado era “um catavento apontando para um vendaval de prosperidade”. Quando as cotações começaram a cair, tranqüilizou os investidores alegando que “não havia fundamentos” para sustentar uma crise. Terminou a vida sem nada. Os erros do passado serviram de lição e são fartamente avaliados pela literatura econômica, mas ainda não surgiu uma metodologia para diagnosticar os humores do mercado. Para o Brasil, resta o consolo de que o país está hoje bem mais preparado para enfrentar problemas na economia. “O risco de uma contaminação é bem menor, pois os países emergentes melhoraram muito nos últimos anos”, diz o economista José Alexandre Scheinkman, da Universidade Princeton. “O Brasil só deve ter problema na hipótese de uma recessão mundial.” Como ninguém sabe dizer se o mundo caminha ou não para uma recessão, a única certeza agora é que o risco fará cada vez mais parte da vida das pessoas. É melhor estar preparado.

 

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Tuesday, March 6, 2007

Rússia diz ser capaz de destruir escudo antimísseis americano na Europa

Moscou, 5 mar - A Rússia é capaz de destruir o sistema antimísseis que os Estados Unidos planejam instalar na Europa, afirmou hoje o general Igor Khvorov, comandante de uma divisão aérea estratégica russa.

“Os elementos do sistema antimísseis são instalações pouco protegidas, portanto todas os tipos de aviões estratégicos são capazes de realizar missões de neutralização eletrônica e destruição física”, declarou o chefe do 37º Exército Aéreo do Comando Central da aviação estratégica.

Moscou tachou de ameaça direta para sua segurança os planos dos EUA de instalarem, na Polônia e República Tcheca, e mais tarde no Cáucaso Sul, elementos de seu escudo antimísseis, cujo propósito é interceptar ataques provenientes de países como o Irã e a Coréia do Norte.

O ex-comandante-em-chefe da Força Aérea russa, o general reformado Piotr Deinekin, denunciou que o local do escudo na Europa do Leste “permitirá aos EUA aumentarem significativamente suas possibilidades de espionar e de destruir os mísseis russos na fase inicial de vôo”.

“Agora, podemos esperar o posicionamento de mísseis táticos operacionais dos Estados Unidos no território de antigos países do Pacto de Varsóvia, e inclusive nos Estados bálticos”, afirmou Deinekin, em declarações citadas pela agência “Internfax”.

Diante desta situação, “nosso Estado-maior deve tomar as medidas adequadas não apenas com fins de contenção, mas também para a destruição ativa dessas instalações, caso elas apareçam, inclusive com a utilização da aviação estratégica”, acrescentou.

Outro general russo, Aitech Bizhev, comandante-em-chefe adjunto da Força Aérea e responsável pela defesa aérea comum da comunidade pós-soviética, denunciou que a instalação de radares na República Tcheca e no Cáucaso Sul permitirá aos EUA “controlarem todo o território da Federação Russa na zona a seu alcance”.

Bizhev opinou que o objetivo dos radares, com um alcance provável de 3 mil a 4 mil quilômetros, será detectar imediatamente eventuais lançamentos de mísseis em direção aos EUA para que estes possam preparar sua defesa e reação.

Quanto à base de mísseis interceptores que os EUA planejam instalar na Polônia, o general Bizhev assinalou que “seu objetivo será abater mísseis lançados por erro em situações de força maior”.

Acrescentou que o lugar das instalações militares americanas no perímetro da fronteira russa afeta a estabilidade na região.

“Eles nos cercarãocom suas instalações e saberão de todos os nossos movimentos. Ninguém gosta de estar no ponto de mira”, disse.

Em resposta ao plano dos EUA, a Rússia já ameaçou abandonar o tratado bilateral de 1987 pelo qual os dois países renunciaram à construção de foguetes de médio e curto alcance, e também disse que pode direcionar seus próprios mísseis contra a Polônia e a República Tcheca.

Moscou, 5 mar - A Rússia é capaz de destruir o sistema antimísseis que os Estados Unidos planejam instalar na Europa, afirmou hoje o general Igor Khvorov, comandante de uma divisão aérea estratégica russa.

“Os elementos do sistema antimísseis são instalações pouco protegidas, portanto todas os tipos de aviões estratégicos são capazes de realizar missões de neutralização eletrônica e destruição física”, declarou o chefe do 37º Exército Aéreo do Comando Central da aviação estratégica.

Moscou tachou de ameaça direta para sua segurança os planos dos EUA de instalarem, na Polônia e República Tcheca, e mais tarde no Cáucaso Sul, elementos de seu escudo antimísseis, cujo propósito é interceptar ataques provenientes de países como o Irã e a Coréia do Norte.

O ex-comandante-em-chefe da Força Aérea russa, o general reformado Piotr Deinekin, denunciou que o local do escudo na Europa do Leste “permitirá aos EUA aumentarem significativamente suas possibilidades de espionar e de destruir os mísseis russos na fase inicial de vôo”.

“Agora, podemos esperar o posicionamento de mísseis táticos operacionais dos Estados Unidos no território de antigos países do Pacto de Varsóvia, e inclusive nos Estados bálticos”, afirmou Deinekin, em declarações citadas pela agência “Internfax”.

Diante desta situação, “nosso Estado-maior deve tomar as medidas adequadas não apenas com fins de contenção, mas também para a destruição ativa dessas instalações, caso elas apareçam, inclusive com a utilização da aviação estratégica”, acrescentou.

Outro general russo, Aitech Bizhev, comandante-em-chefe adjunto da Força Aérea e responsável pela defesa aérea comum da comunidade pós-soviética, denunciou que a instalação de radares na República Tcheca e no Cáucaso Sul permitirá aos EUA “controlarem todo o território da Federação Russa na zona a seu alcance”.

Bizhev opinou que o objetivo dos radares, com um alcance provável de 3 mil a 4 mil quilômetros, será detectar imediatamente eventuais lançamentos de mísseis em direção aos EUA para que estes possam preparar sua defesa e reação.

Quanto à base de mísseis interceptores que os EUA planejam instalar na Polônia, o general Bizhev assinalou que “seu objetivo será abater mísseis lançados por erro em situações de força maior”.

Acrescentou que o lugar das instalações militares americanas no perímetro da fronteira russa afeta a estabilidade na região.

“Eles nos cercarãocom suas instalações e saberão de todos os nossos movimentos. Ninguém gosta de estar no ponto de mira”, disse.

Em resposta ao plano dos EUA, a Rússia já ameaçou abandonar o tratado bilateral de 1987 pelo qual os dois países renunciaram à construção de foguetes de médio e curto alcance, e também disse que pode direcionar seus próprios mísseis contra a Polônia e a República Tcheca.

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